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sexta-feira, fevereiro 03, 2012

We're not in Kansas anymore

Gritava com uma garganta arranhada, produzindo um som rouco, mas muito, muito alto. Era ensurdecedor.
Não sabia bem por que; A cabeça doía, o corpo parecia fraco. Algo em seu corpo tremia involuntariamente, mas a velocidade com que corria não o permitia identificar o que era. Ele era um borrão na paisagem que um dia fora urbana. Um raio em linha reta, entre os escombros.
Sentia uma espécie de raiva, uma fúria guardada com tanto zelo que mal a reconhecia.

Essa raiva se agarrava naquele corpo veloz, quase arrancando sua pele enquanto se deslocava. Pesava.
Adicionando peso, havia uma tristeza estranha. Não a conhecia mais, também, apenas sentia. Sua massa supressora pressionava o coração, que a essa altura parecia pequeno e quase incapaz.

Como ele conseguia correr assim? Ele não tinha vontade. Não sentia vontade de nada naquele momento. Apenas continuava em linha reta, corpo curvado, pernas se movendo a sei lá qual freqüência, pés quase não tocando o chão.

E então não estava. Era o mundo que corria embaixo dele. Uma sensação esquisita de falta de controle sobre as coisas, sobre si mesmo. Não era acostumado com essa sensação, mesmo que não fosse exatamente nova para ele. Enfim.

Sua visão embaçada não focava de jeito nenhum, não parecia captar tudo que se passava ao seu redor. A audição era quase nula, embora muito barulho acontecesse. O mundo parecia estar com algum problema. Parecia menos real... menos real do que um sonho.
Uma preocupação descomunal atacava sua mente, o coração acelerava e o estomago queimava como a fogueira que carboniza a carne no enterro de um guerreiro, levando aquele corpo cansado para o infinito.

Era muita coisa acontecendo, muito para sua mente. O cérebro começava a pifar, esquecia de funcionar direito. Esquecia. Esquecia de si...

Veio a dor. Atravessava o crânio desprotegido, sacudindo-o com tamanha leveza que um observador mal perceberia qualquer movimento. Era quase em câmera lenta.

Assim como o mundo. Era tudo tão rápido, e tudo tão lento. Parecia um filme que passa rápido demais e que só se percebem alguns quadros. Assimilar está difícil, devagar. Cada imagem demora a fazer sentido.
Os sentidos estão confusos.

Confuso, confuso. Uma tontura generalizada parece invadir o rapaz. Ele está cambaleando, capotando, caindo. A câmera em primeira pessoa capta o chão/horizonte/céu/mãos/poeira/céu/chão e pronto. A tosse confirma que ainda existe um chão abaixo, e é poeirento. Tossiu novamente, ainda rouco. Só então percebeu que tinha finalmente parado de gritar.

Se apoiou nos braços enfraquecidos e içou o corpo até estar sentado.
Decidiu que pra onde olhava era “pra frente”, e teve certeza que estava olhando para frente. Meio vesgo e totalmente débil, via algo se aproximando. Voava em sua direção. Parecia vir rápido, mas não chegava. Só estaria ali de repente, cravado nele, fosse o que fosse.

Nada estava explicado, a confusão do mundo era tal que parecia impossível conseguir respostas para qualquer coisa. Ele tentava definir novos conceitos para o que seus sentidos captavam, em busca de uma explicação. Mania essa de querer entender.

Tateava chão, concreto, espinhos de alguma planta. Sentiu dor. Conhecia a dor, e se sentiu feliz por conhecer algo. Se sentiu triste logo depois.
Algo estava errado, e talvez fosse tudo.

Turbilhão turvo. Então o nada. Precisou e adormeceu.


domingo, junho 12, 2011

The Inch

"But it was my integrity that was important. Is that so selfish? It sells for so little, but it's all we have left in this place. It is the very last inch of us. But within that inch we are free. (...) An inch. It's small and it's fragile and it's the only thing in the world worth having. We must never lose it, or sell it, or give it away. We must never let them take it from us."

domingo, abril 24, 2011

Inspiro

A cabeça dói, o mundo roda. Tudo gira, gira e gira, e você está no mesmo lugar.

Mas você está no mesmo lugar.

Pois você está no mesmo lugar.

Pouca coisa mudou, se reparar bem. A sensação é quase a mesma, não importa o tanto de verdades que você possua na bolsa, suas ou de outrem.

Pouca coisa mudou.

O corpo cansado, cansa e mente, que já bastante cansada cansa o corpo. E pensar no cansaço causa tanto cansaço que dói. E começa a descrição das dores.

Numa ordem não de importância, a dor começa na cabeça. Na mente, e na cabeça.

Desce pelo pescoço, bem atrás. Pesa nos ombros como chumbo, passa pelas costas e se fixa na base da coluna, lá onde incomoda quando você senta pra pensar. Mentalmente, a dor se aloja na visão da vida, que roda, roda, gira, e não sai do lugar. Nublando a memória, a dor se deve ao lembrar do que não se pode, ao lembrar do que se foi, e do que nunca poderá ser. É bastante simples, na verdade.

Um nó dolorido na garganta vem de baixo, subindo do coração. Tem lá sua dose de peso nos ombros, mas causa uma dor chorosa embaixo dos olhos, que permanecem secos como o deserto de esperança ausente.

Trabalho feito inutilmente e jamais reconhecido é o que acontece. Todo o seu esforço e paciência..

Esperança inexistente, que gira, roda, anda, e não sai do lugar. Não respira. Morde o maxilar, rígido, quase todo o tempo. Mas nada sai do lugar, mesmo quando parece que tudo se move.

O que existe, no momento, não existe. Não pode existir.

É falso e inacreditável. É nulo, vácuo, por onde o som não passa. Preso na garganta.

O único significado agora é o nada. Nada mais significa. Tudo por nada, tão em vão quanto o ar que circula agora, e que não faz vento. Não faz.

Não vento.

A cabeça dói, o mundo roda. Você está no mesmo lugar.

Expiro.

Tudo outra vez.

domingo, abril 10, 2011

A Arte de Continuar II


O cavalo, coitado, há muito estava perdido. Não havia sobrevivido a todo esse percurso, o pobre animal. Diferente dele. Ele sobrevivia. Até vivia.

Suas botas grossas, de sola emborrachada, respingavam lama marrom para todo lado, e faziam um eco estranho do chacoalhar da água presa em algum lugar dentro delas. A parte de trás da sola, no calcanhar, era severamente mais gasta do que o resto, talvez por seu modo tão singular de andar pelos caminhos.

A velocidade de sua viagem havia sido lamentavelmente comprometida desde que seu cavalo sucumbira a cansaço e fome. Talvez tenha se descuidado do bicho, achando que finalmente estava chegando a seu destino, e falhou miseravelmente ao calcular isso. Havia ficado mais distante ainda. Provável que até impossível.

Mas ele se recusa a desistir, de qualquer forma. Viveu até agora enfrentando, e sim, agüentando, tudo que veio pela frente. Sem temer de qualquer sofrimento que possa ser causado a ele no caminho. Sobreviveu até agora, e até viveu.

Neste ponto da sua busca, o guerreiro parou para encarar essa parte especialmente difícil do caminho, e ficou agradecido aos deuses por seu cavalo ter sido poupado deste mau bocado. À sua frente, um calor que provocava um nó de sofrimento na garganta anunciava o que seus olhos enxergavam com facilidade: um túnel de fogo e carvão; lava escorria de alguns pedaços do terreno e descia até o abismo que completava a paisagem até onde a vista alcançava. Não havia outro caminho. Era cair no abismo de lava ou seguir no túnel de fogo. No fim deste túnel, visível apenas para os olhos treinados, havia... nada. Só via um vazio lá no fim, e sabia então que terminaria sua jornada no nada, se conseguisse terminar.

O raciocínio foi tão rápido que nem pareceu ter acontecido.
Foi fácil decidir o que fazer, afinal, ele seguia em frente implacavelmente há tempos e era bastante experiente nisso. Ensaiou o primeiro passo em frente, já arrastando parte do calcanhar estragado da bota no chão.

O mais difícil, desta vez, foi aceitar que sua jornada não iria terminar com uma vitória. Mas teria que terminar e estava se preparando para pelo menos seguir o caminho vitoriosamente, olhando para frente.

Arrancou um dos botões de cima de sua camisa negra e úmida e logo ia dobrando as mangas. O caminho até o nada seria bastante quente.

Ele sobrevivia. Chegaria lá sem botas e com os pés queimados, mas chegaria. Até o fim do abismo.

segunda-feira, março 28, 2011

So long, So long


O motor do carro roncava quase tão alto quanto a música nos ouvidos do motorista. A música estava bastante alta, e incomodaria qualquer outra pessoa que estivesse dentro daquele carro, se houvesse alguma.

A estrada noturna permitia visibilidade limitada da paisagem, mas ele gostava assim mesmo. Durante a noite, apenas o vento entrando pelas janelas e o som da sua música já eram beleza suficiente, então paisagem nenhuma era necessária.

Era bom demais sentir o vento forte sacudindo sua camisa de botões, leve e solta no corpo. O cabelo curto praticamente não se movia, mas dava pra sentir os sopros passando e acariciando sua cabeça, já fria em função do ar gelado.

A blusa leve, de flanela e com alguns botões faltando, mal protegia do frio. Fazia 7ºC numa noite que ventava, mas ele dobrava as mangas até os cotovelos assim mesmo.

Os braços se moviam pouco enquanto as mãos batucavam levemente no volante ao ritmo leve da música, alternando em imitar piano ou violão.

O avançar da kilometragem das placas indicava a proximidade à uma cidade. Uma leve excitação, acompanhada de uma revirada leve no estômago, começaram a digerir a informação: estava finalmente chegando. Mais de vinte horas dirigindo, com algumas paradas rápidas pra comer, e cochilos de apenas um par de horas no banco de trás do carro. Estava finalmente a poucos kilômetros de lá. Dela.

Como que sentindo o momento, a música seguinte deu um tom de reencontro, e uma leve nostalgia tocava o violão. Ele afinou o rosto numa expressão um pouco séria. O maxilar ficou rígido, esperando a curva terminar.

Todo o barulho de música e motor, pareceu se esvair. Nada era ouvido, nem mesmo o clichê das batidas de seu coração. As mãos firmes apertavam o volante e as sobrancelhas se juntavam lentamente, acompanhando o progresso rápido pela curva, que já parecia ser infinita.

E então a reta finalmente apareceu, o volante voltou para sua posição original e um sorriso se abriu.

A música voltou, mais animadora do que nunca, e até o motor do carro pareceu comemorar.

À frente, descendo mais uns poucos kilômetros, se viam as luzes de uma cidade. Os pontos de luz azulada e amarelada ao longe pareciam estrelas, e ele acelerou de encontro ao seu destino.

Depois de tanto tempo, e de tanta espera, finalmente ele estava chegando. Se aproximando de seu abraço quente e do cheiro maravilhoso que sentiria. Chegando cada vez mais perto do sorriso que o fazia sorrir automaticamente, mesmo quando era apenas uma lembrança.

Gargalhou uma comemoração, parecendo fazer parte da grande sinfonia do momento.

Pisou mais no acelerador ao lembrar do beijo, e então já se sentia em casa.

sábado, março 26, 2011

Through the fire and flames

E então a chama se levantou alto, apontando para o céu escuro, e o mundo começou a girar mais rápido. Esse fogo não pode mais ser ignorado, uma vez aceso.

Era um pequeno carvãozinho, parado ali no seu canto, enquanto o sistema todo funcionava normalmente. Luz e sombras brandiam suas espadas uma contra a outra, caos acontecia, tudo explodia, e a pedra preta inflamável ficava ali. Parada.

E sob a lua, o inexorável resolve que está na hora de mexer nesse sistema por dentro. Está na hora de provar de um novo tipo de caos, aquele que vai testar se todos os anos de aprendizado sobre este mundo orgânico, que é o próprio interior, funcionam na prática. É um novo contexto. Autocontrole no máximo, apitando, palpitando, e a resistência é testada sob pressão catastrófica.

A combustão acontece, então, e o jogo começa. O jogo no qual não se faz idéia de o que seja ganhar ou perder, e a rolagem de dados mostra resultados oblíquos, caindo e equilibrando-se nos vértices, diz apenas que você ainda consegue continuar. E o caminho não pode ser analisado de forma a se saber se está indo pra frente ou para trás. É só um caminho pra dentro, cada vez mais.

Uma vez que o fogo está aceso, nada mais se pode fazer: proibi-lo de queimar o ar e se manter, é pedir que ele fique mais forte; não se pode tentar controlar ou desviar das faíscas que queimam; o fardo agora é o peso de esperar que ele se enfraqueça ou que vire uma labareda poderosa por si só, tomando a decisão de alimentá-lo ou tentar extingui-lo no instante exato, sob o sopro correto do vento frio.

Até lá, rasgue o céu e seja a fênix que você pode ser, por que parte da diversão é ver o fogo queimar o que pode. E fugir não é mais uma opção.

segunda-feira, março 21, 2011

/10

Sua face pasma, com a mão jogada por cima da boca e rugas de expressão na testa, não mentia. Eram tantos pensamentos, tantos exemplos que ele poderia dar. Tantos momentos em que ele se policiou pra não fazer o que não deve e pra não ser exatamente o que era jogado nele agora. Uma torrente de sentimentos passou por sua mente, trazidos pelas lembranças, até recentes, do seu esforço. Mas ele segurou tudo, tentando ficar calado. Queria ver até onde tudo aquilo iria.

Então é isso? É assim que é visto? Olhou pra dentro de si mesmo e procurou respostas. Realmente considerou, por um breve momento, se poderia haver verdade naquilo que era atirado contra ele, na ponta da flecha. Como que encontrada por sua própria mão e exposta claramente a seus olhos, surgiu a resposta: “Não. Esse não sou eu. Esse é exatamente o tipo de pessoa que eu decidi ser o oposto desde que eu tinha quinze anos de idade, ou treze. Essa pessoa, esse não-eu, corrompe e destrói tudo com o que eu me importo. Suja o chão por onde passa e ofende o próprio ar que respira”.

terça-feira, setembro 21, 2010

quarta-feira, setembro 15, 2010

Perguntaram a John Lennon:


- Por que você não pode ficar sozinho, sem a Yoko?


- Eu posso, mas não quero. Não existe razão no mundo porque eu devesse ficar sem ela. Não existe nada mais importante do que o nosso relacionamento, nada. E nós curtimos estar juntos o tempo todo. Nós dois poderíamos sobreviver separados, mas pra quê? Eu não vou sacrificar o amor, o verdadeiro amor, por nenhuma piranha, nenhum amigo e nenhum negócio, porque no fim você acaba ficando sozinho à noite. Nenhum de nós quer isto, e não adianta encher a cama de transa, isso não funciona. Eu não quero ser um libertino. É como eu digo na música, eu já passei por tudo isso, e nada funciona melhor do que ter alguém que você ame te abraçando.



Catado daqui: http://agreedoce.tumblr.com/

terça-feira, setembro 14, 2010

Sim / Não. Pode / Não Pode. X / !X


A dor de cabeça não era nenhuma novidade, e ela resolveu levantar do computador por um tempo. Pegou a garrafa d’água na mesa às suas costas e começou a dar grandes goles enquanto andava até a janela.

A garota vestia um short folgado de um rosa desbotado e uma blusa velha amarela, com alças finas que não permaneciam nos ombros de jeito nenhum.

Um vento fresco vinha ao seu encontro, promovendo um arrepio leve. De seu quarto, no 3º andar, podia ver a rua vazia e quieta que só a madrugada proporcionava. O cheiro leve de asfalto molhado e grama úmida trazia uma sensação boa. Gostava da noite.

Uma pontada aguda na têmpora o fez se levantar da poltrona do computador. Imediatamente ele inclinou a cabeça em ângulos estranhos, estalando o pescoço com um som alto. Fez algumas flexões no chão antes de ir até a janela grande na pequena área de serviço. Observou o céu nublado por um tempo.

O ar úmido anunciava chuva, e ele se concentrou em ouvir as gotas que começariam a cair em segundos. O silêncio da madrugada o encorajava a continuar ouvindo o nada indefinidamente, e ele permaneceu ali só ouvindo e pensando em nada muito específico. Divagando em pensamentos sem peso, sem preocupação.

O ombro da garota foi quem a avisou que começara a chover. Uma grande gota gelada tocou sua pele onde deveria haver uma alça de blusa e a tirou de seu transe. Estava totalmente perdida em pensamentos sem importância.

O frio foi repentino.

Um trovão veio junto com as primeiras gotas da chuva e fez o rapaz piscar. O frio ainda não o incomodava, mesmo ele estando em seu habitual traje de dormir, que consistia basicamente em uma calça preta fina e nada mais.

O vento gelado soprou novamente e dessa vez o fez encolher os braços em volta de si mesmo.

Ela quis ser abraçada de repente. Seu semblante tranqüilo se modificou em uma expressão de saudade de alguém que nunca teve. As sobrancelhas se juntaram devagar, e os lábios rosados formaram um bico pouco perceptível.

O maxilar se enrijeceu.

E a expressão dele ficou séria. Neste momento certamente o perguntariam o que diabos ele estava pensando e ele, como algumas vezes, simplesmente não tinha uma resposta de imediato. Apenas sentia falta de alguém que nunca teve.

O rapaz e a moça poderiam muito bem estar em prédios um de frente para o outro. Poderiam estar se encarando agora e sorrindo simpaticamente pela expressão de um ser o espelho da do outro. Poderiam conversar de longe por sinais e finalmente decidirem descer de seus apartamentos e conversarem na rua, e a conversa começaria com ambos gargalhando por “como a gente é bobo de ficar fazendo mímica ao invés de descer logo” antes mesmo de um saber o nome do outro.

Eles poderiam tranquilamente conversar até repararem que ficou incrivelmente tarde e eles têm que voltar pra casa, e ainda sentirem vontade de conversar quando chegarem lá.

Poderiam tornar costumeira a passada na janela entre qualquer atividade em casa, só pra ver se eles se vêem “por acaso”. Ou talvez de repente a tarefa de abrir o portão pra entrar no prédio tenha ficado trinta segundos mais demorada. Talvez mais demorada, se eles ficassem olhando pra trás, para o prédio em frente ao próprio.

Tudo isso é possível, mas não aconteceu.
Nenhum dos dois teve o abraço que queria. Nenhum deles foi protegido do frio.

Ele não tocou o ombro dela pra ajeitar a alça da blusa que caía pela quadragésima nona vez, após horas de conversa. Ela não comentou rindo que ele provavelmente pareceria menos mendigo de dia, enquanto tocava a barba por fazer dele e apontava sua camisa totalmente amarrotada.

Eles não ignoraram totalmente a chuva enquanto estavam juntos. Isso não aconteceu.

Os dois viveram suas vidas como puderam e nunca se encararam de suas janelas, através da chuva. Talvez tenham se visto em alguma palestra da faculdade, ou alguma festa.
Podem ter se conhecido em alguma turma de uma matéria esquisita de humanas.

Nunca tiveram mais do que isso. Sempre foram mais do que isso.

As coisas podem acontecer, podem se desenvolver, desabrochar e se tornarem acontecimentos e sentimentos sólidos.

E pode não acontecer nada, não importando o quanto se quer ou se pode. Pelo simples fato de não acontecer.

O mais perto que esses dois chegaram de se relacionar de qualquer forma, pode ter sido esse olhar para a chuva. Ou eles podem estar juntos neste momento, vivendo as próximas chuvas juntos.

No fim, é só uma história de vida ou de blog. E pode não ser a sua nem a minha.

Ou pode ser a nossa.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Os cascos de seu cavalo negro escorregavam no chão enlameado e irregular enquanto ele cavalgava veloz.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Dusk and dust

O aperto estranho no peito já não podia mais ser ignorado. Ele se distraía empenhando-se o máximo no uso de toda a sua coordenação motora e reflexo, mas nem isso tirava o ‘pensar’ da sua cabeça. E o aperto no peito não se deixava ser ignorado.

Já chegava a ser uma espécie de dor física, o que ele sentia. Não era só um sentimento ruim mais. Era verdadeiramente a sensação de que um par de mãos invisíveis apertava por cima de seu coração, como que para fazer uma massagem cardíaca às avessas: com o objetivo de parar seu coração, ao invés de fazê-lo voltar a bater. A pressão na caixa torácica dificultava um pouco a respiração e até pensar com clareza estava ficando difícil (o que não o impedia de pensar, de qualquer forma).

A luta em si, para não ficar mal, estava começando a o deixar mal. A tentativa de resistir ao que não se podia resolver por si mesmo estava se tornando parte dos problemas. Além de tudo, o próprio fato de não poder fazer nada já era considerado por ele como uma derrota constante.

Cada dia era uma luta interna de resistência a tudo. Tudo havia se tornado um combate mental em um loop infinito e no momento só existia o cansaço. Extremo.

Tudo isso estava cansando. Ele estava muito, muito, muito cansado.

sexta-feira, agosto 20, 2010

A Arte de Continuar

Os cascos de seu cavalo negro escorregavam no chão enlameado e irregular enquanto ele cavalgava veloz. O vento forte machucava os olhos e desprendia as lágrimas. Precisava chegar rápido, não podia se atrasar nem um minuto que fosse. Não poderia perder essa chance, talvez a única chance.

Subiu a colina e observou o campo à sua frente. Kilometros de campo aberto e de mato alto e uma descida pouco íngreme o separava de seu destino. Ao longe, podia ver a chuva forte que caia. Sempre a chuva.

Podia sentir o cheiro da chuva enquanto continuava a cavalgada desenfreada. A grama aos joelhos de sua montaria passava em um borrão verde e a terra espirrava para trás do cavalo. O alazão não se assustava nem com os trovões mais fortes, bem como seu cavaleiro. Os clarões eram encarados como dádivas, davam força para continuar a empreitada e completar a missão.

As muitas horas, talvez dias, de corrida contra tempo, clima e cansaço finalmente terminavam. Já podia encarar o imenso portão de madeira que dava passagem através da muralha. Na parte baixa, na altura da cabeça de um homem, havia um grande escudo marcado com a grande cabeça de um leão, como que observando e avaliando a coragem daqueles que se aproximavam.

Foi um esforço para parar o grande cavalo em frente ao portão. Ele parecia querer continuar para sempre.

O homem, com a roupa molhada e suja, mas um ar vitorioso, encarou o portão. Desmontou, apertou mais a fivela do cinto que carregava a espada e andou até o portão. Bateu três vezes no escudo.

A espera pareceu de meses. A chuva se transformou em tempestade e o frio se intensificou. A noite caiu e o dia se fez e ele continuamente tentou de várias formas abrir o portão, até que finalmente uma pequena fresta se abriu com um barulho enorme e palavras pesadas foram ditas.

De cabeça baixa, o cavaleiro voltou à sua montaria e cavalgou até que sua cabeça pudesse se levantar.

Os cascos de seu cavalo negro escorregavam no chão enlameado e irregular enquanto ele cavalgava veloz.

terça-feira, agosto 10, 2010

Trovão que não se ouve não existe

O barulho alto da chuva o deixou louco. Seu tilintar ritmado no teto da varanda e o som da rua sem asfalto sendo atingida pelas gotas eram a sinfonia perfeita para o momento.

Todos aqueles pensamentos guardados secretamente, alguns até de si mesmo, pareceram vir à tona. Foi como se passassem do gasoso para o líquido de repente, ocupando menos volume e pesando mais.. querendo escorrer pela cabeça. Querendo se juntar à correnteza criada pela chuva.

Estava pesado, muito pesado. Precisava falar ou colocar tudo pra fora de alguma forma.

Colocou a si mesmo pra fora.

Saiu na chuva grossa sem medo. Os pingos grossos já o atingiam antes que terminasse de abrir o primeiro portão, causando um pequeno estranhamento de temperatura em seu corpo. Ao atravessar o portão que largou escancarado, ele se livrou da sua blusa. Abraçou a chuva de peito aberto, mergulhou no som dos trovões.

Ria de seu comportamento enquanto ia ao segundo portão, que dava saída pra rua. Era sempre assim, não importando a época. Mergulhava quando queria algo. Quando tinha esse algo, mergulhava mais ainda, de cabeça, aproveitando cada instante. A cabeça, que tanto usava pra pensar demasiadamente sobre tudo, abria o espaço e, ponta de lança, cortava o caminho a se seguir. O coração dizia a direção e o espírito agüentava todo o dano que vinha como faca afiada em sua direção, dilacerando até orgulho em seu caminho.

Mas o mergulho sempre continuou. Apesar das dores, cortes e cicatrizes (mesmo que nem sempre obvias ou mesmo visíveis), da pressão aumentando quanto mais fundo ele fosse, ele continuava. Um mar de acontecimentos bons e ruins estava a sua volta enquanto durasse o mergulho, mas ele fora o mestre do otimismo e da coragem. Continuava, sempre, em frente, sempre em frente, sempre em frente, como o trem que se prende aos trilhos do caminho escolhido (até mesmo repetindo analogias).

A chuva, depois de encharcar rapidamente os cabelos castanhos, escorria do rosto aos ombros, parte caindo diretamente ao chão, parte escorrendo pelos braços e tórax. Era uma sensação excepcional. A cascata gelada descia pelo corpo provocando uma espécie de choque no caminho, provendo energia. Dando coragem e resistência por onde passava.

Parou de pensar e só se concentrou naquele momento singular, mesmo que já repetido algumas vezes.

O peso no peito passava, o nó na garganta se desfazia.

Os sentidos melhoravam. O olfato, geralmente deplorável, agora sentia um agradável perfume que incitava à busca de sua origem. O paladar estava deixando de sentir o gosto amargo de instantes atrás. A visão clareava e os olhos não se incomodavam com a chuva, de forma alguma. Um ímpeto vindo do instinto o fez se mover.

Postou-se a correr. Como se suas pernas fossem guiadas para o bom caminho, ele corria no ritmo de uma respiração rápida e compassada. Depois de meia hora correndo e tentando não escorregar na chuva, enfrentando lugares enlameados que exigiam força para se passar, o cansaço deveria ter chegado. Mas não chegou. Por muito tempo não houve cansaço, e por muito tempo ele não descansou.

Sempre fora assim. Ao primeiro sinal de que as coisas estavam bem, numa fagulha de felicidade, debilmente ele ia em frente, com tudo que tinha.

Não descansou até perceber que precisava. E quando percebeu, cansou. Sua energia foi a zero imediatamente. Nenhum espírito é tão forte assim, garoto. Vê se aprende. – era o que rodava em sua mente numa voz pouco mais grave que a própria.

Neste momento ele piscou e se viu parado exatamente do lado de fora do primeiro portão. Não havia corrido um centímetro, nem saído para o dilúvio da rua. A chuva forte começava a estremecer seu corpo.

Achou que estava ficando bem. Teve esperanças nessa chuva perfumada onde estava, pra onde fora atraído. Não era a sua primeira vez e não seria a ultima em um acontecimento desses, pensou. Listou mentalmente todas as coisas que tinha na cabeça, e se deu conta que não botara nada pra fora. E estava tudo exatamente do mesmo jeito.

A mesma falta de vontade. Ou seria de força?

Como que sentindo medo, seu espírito machucado tremia com força sob a chuva. E o garoto tentava decidir: voltar pra casa vazia, se enxugar e esperar a próxima chuva ou abrir o portão e enfrentar a tempestade lá fora?

Essa decisão tem alguma coisa a ver com seu estado atual?

Ele acordou cheio de perguntas a si mesmo e sentindo o vento frio vindo da janela. Apalpou ao seu lado a parte sempre vazia da cama, buscando ali algum conforto. Costume idiota. Vazio. Só isso. Idiota.

sexta-feira, maio 21, 2010

Several Ways to live Trying

Saindo do breu de um beco úmido, seus passos ecoando um som de borracha em lama, ele tira um objeto prateado do bolso e expõe à garoa. O som do isqueiro abrindo, libertando uma pequena chama ao vento forte, é como o toque de um pequeno sino em meio ao ritmo ditado pela goteira que incomoda a metros de distância.

Ele pára e encosta na parede ao fim do beco, observando calmamente a chama que não se apaga sob a garoa, perseverante.

Olhando sobre o ombro, para a escuridão de onde saiu, ele nota que a pequena chama ilumina fracamente um círculo envolta, rachando com destreza uma pequena parte da sombra que ficou para trás. Voltando ao fogo, lembra-se.

Um cavaleiro, veloz, cavalga sobre um campo verde com poucas árvores. Já foi espada e escudo.

Já defendeu amigos e também já falhou nisso. Já foi escudo para si mesmo, e lança também. Já atacou seu objetivo sem pensar, ignorando toda a dor causada pela peleja infinita e absurda. Lutou sem causa, sem orgulho. Pisou em cima de sua própria razão e por vezes cuspiu sangue em sua face no espelho, escondendo ali a cara machucada e infeliz que não admitia o erro. No coração, continuava sendo um cavaleiro.

Havia se desfeito de sua armadura há muito tempo. O peso que o defendia o tempo todo não era necessário. Agüentou, por tempos, dores que não eram suas. Foi bom com aqueles que buscavam nele algum conselho, amizade ou carinho. Também buscava os mesmos em pessoas e, intencionalmente ou não, foi bom na troca.

Mas seu espírito ia ficando cansado. As constantes batalhas, muitas que somente ele tomou conhecimento, muitas consigo mesmo, desgastaram sua vontade.

Ele pisca finalmente, olhos lacrimejando, e na visão turva se repete o momento em que abandonava sua espada. Quando escolheu trocar o bom combate pela artimanha. Por um tempo antes disso, já não era o mesmo. Já não tentava tanto ser melhor, evoluir. A bainha agora carregava uma adaga, polida pelas vontades e cravada com rubis que davam uma estranha sensação de liberdade, acompanhada por um sorriso que poderia um dia ser vil. Tinha o potencial.

Por um tempo, seguiu o caminho mais curto. Andou pelas sombras, fez coisas das qual não se orgulhava. Seu orgulho, inclusive, ficava escondido. Difícil de alcançar até pra ele mesmo. A visão, por vezes embaçada na luz, caía pro lado e não o reconhecia no espelho. Observava os próprios olhos com dificuldade e via sua silhueta, contornada por um ar inflamável. A cara de olheiras roxas e barba por fazer atirava cansaço e quase quebrava o vidro fino que prendia sua dignidade. Não gostava de algumas atitudes suas, mas continuou no caminho torto, apesar dos avisos que já chegavam aos seus ouvidos atentos.

O ar inflamável à sua volta começava a queimá-lo. Mas precisava seguir mais um pouco. Acostumado idiotamente a ir até o limite, ele continuou.

Personificou o contrário do que era.

Decepcionou, decapitou sua própria razão, e seguiu somente a vontade. Decepcionou, denegriu seu próprio manto de honra, já manchado e rasgado, antes ostentado pelo esforço.

Nada que encontrou no caminho oblíquo durou. Mas o que é que dura nessa vida?

Piscou novamente. A chuva, agora forte, o acordava dessa vez. A mínima chama do isqueiro prateado continuava acesa, de alguma forma mágica. Encarou-a com avidez. Esperava algum sinal, mas este já estava dado. Esteve jogado em sua face o tempo todo. Nunca havia saído dali, só ele havia escolhido ignorar.

Fechou o isqueiro com ímpeto, quase prendendo o próprio dedo. O som metálico ecoou por todo o beco e, apesar da chuva já forte, produziu o som de metal batendo em metal, como lâminas se combatendo. Desencostou da parede onde estava. Tinha que se mover. Sacudiu um pouco da água acumulada em seu casaco e colocou o capuz.

Soprou um pouco de vapor ao começar a caminhar. Agora faria um caminho novo. Iria inventar. O improviso lhe cairia bem enquanto recuperava a dignidade e honra que estavam turvas, as poucas certezas que tinha.

Ele andou seus passos rápidos pela noite, criando um novo caminho.

Eu gostaria de dizer que ele foi bem-sucedido em suas empreitadas. Adoraria dizer que conheceu várias pessoas que fizeram parte da sua vida até o fim desta, e que manteve esplendorosamente os velhos amigos. Seria maravilhoso afirmar que ele encontrou pelo menos parte do que procurava em uma pessoa especial, e que ele mesmo se tornou muito melhor durante todo esse processo.

Seria excelente saber desses detalhes com precisão, mas seria saber do futuro. Cada parte dessa história ainda será construída. E eu espero continuar aqui pra contar o resto.

Continua... (?)

sábado, março 27, 2010

Nada

Post da época que eu fazia curso técnico (informática) de manhã e pré-vestibular a tarde. Machucava.

28/08/08

Nada mais do que um dia cansado.

Os olhos semi-abertos vendo o mundo girando e água sendo jogada na face magra, parecendo ter nada mais do que uma ou duas horas dormidas.

Nada além de caracteres digitados, funções utilizadas e abstrações feitas. Janelas abertas sem o vento entrando. Tudo bem abaixo do ar-condicionado, o frio cortando a garganta machucada, que tenta se esquentar por palavras de lábios ressecados a ouvidos congelados. Lógica utilizada pelos dedos rápidos, movidos pelas engrenagens neurais de apenas mais um iniciante. Pessoas chamam concentração de loucura, raciocínio de desequilíbrio.

Nada de cochilo, não há descanso. As cinzas da mente estacionam enquanto a paisagem passa, machucando os olhos, e o trem amarelo carrega seus escravos de sempre, em frente, sempre em frente, sempre em frente, sempre em frente. Olhos fundos e pernas automáticas percorrem o que resta do caminho, pegando o menor trajeto, fazendo trilhas pela grama baixa, dis(re)torcida.

Nem uma grama de falta de sono na mente nublada, abaixo do sol escaldante (não há sombra, lembra?). Só o vento parece querer ajudar.

A história é sempre a mesma, não importa o quão distante se encontra de seu eixo de rotação. O peso das pálpebras se mistura com a dor no pescoço. O norte tende a sul quando um sono sem sonhos se apressa em acordar sobre o braço dormente. Números infinitos surgem, formigando as mãos instigadas a se mover.

E ao vencedor, as batatas.

Ao fim do dia, horas extras.

Cercado da poeira dos livros antigos, voando de carros a blocos de geometrias estranhas, o diagonal quase caindo para o lado se esforça para não perder o foco. Nada de ângulos errados. Centrado.

E zero. Nada de mais.

Só mais um dia oblíquo pelo caminho torto.

Trem cheio como a cabeça. Catatonismo e, de repente, o lar.

Horas de minutos infinitos que passam na velocidade da luz, quase nao dando tempo de se dar conta do tempo (que é estranho, desde ontem).

E mais e mais letras. Palavras escritas ainda a pensar, e sentidos confusos.

Nada de mais, quando se faz o mínimo pra não ter mais que fazer nada. O mínimo pra nada mais precisar ser mais difícil do que já é.. e talvez no futuro, poder fazer quase menos do que tudo para ter bem mais do que nada. Só uma.

Uma respiração leve. Só o necessário.

E até lá, nada será tão necessário quanto o descanso. Que é tudo o de menos que se tem.

Um texto não é lido, e não é nada de mais.

A mensagem vazia foi dada.


Obrigado, boa noite.

Que você não sonhe nada.

domingo, fevereiro 21, 2010

O que é mesmo que se passa?

Por que eu não estou escrevendo?
Era o que eu me perguntava hoje, enquanto ajeitava algumas coisas da casa.
Andava de um lado pro outro com o fone no ouvido, ouvindo lembranças recentes, e pensava nisso.

A conclusão que cheguei: distúrbio psicológico oriundo de distração sentimental orientada à vácuo, totalmente sem motivo, forma, esperança, cor e gosto. Uma doença comum e que te atinge, você querendo ou não, como qualquer outra doença. Que faz você querer todo aquele cuidado especial, como qualquer doença. E que faz você parecer um completo idiota aos próprios olhos. Isso, nem toda doença faz.

É claro que, diante da minha desatual situação, deixar que tal bola de fogo (ou seria de feno?) me atingisse não poderia ter sido uma opção, mas rolar com esta por aí foi. Então não posso culpar ninguém além de mim mesmo, e não permito que culpem.
O fato é que, uma vez rodando nesta situação, não se raciocina direito. Sua razão passa a ser substituída por um algo que geralmente é difícil de identificar. Você tenta escrever pensamentos e teorias baseadas na razão, mas só sai.... isso. Resmungos, reclamações, sob o risco de riscar sua própria, e raramente boa, imagem real.

Você faz metáforas e jogos de palavras, e disfarça o significado propriamente dito do que se quer dizer, mas não diz. Por que já foi dito ou porque não precisa ser dito, e ninguém diz o contrário. E cada vez mais, cada linha que se escreve se embola como barbante, se dá nó, se amarra e quando finalmente você acha que jogou aquilo no ar, puxou a linha e é livre, lá está você: rodando como um peão, pronto pra parar em qualquer lugar, cair, e ser embolado em suas próprias linhas novamente. Talvez em outras mãos, que não as suas.

E percebe que está perdendo o sentido, enquanto escreve. Mas seus sentidos já estão perdidos a muito tempo. Você olha para cada palavra e não vê mais sentido, não vê explicação. Você mal ouve o que escreve, quando deveria estar olhando. E a sinestesia se espalha e atrapalha enquanto você vê o cheiro bom que vem com o vento, respira um gosto amargo e percebe que o que seu tato não vê a hora de tocar, é apenas uma visão longínqua do que ele não pode ter nem ler.

Então você abaixa a cabeça, escreve, e não faz sentidos.
E no fim, quando não está explicado o exato motivo de eu não ter escrito ultimamente, o motivo está obvio e muito bem descrito, embora não escrito. Embora não bem. Embora aqui, e não fácil de se entender, é legível, tangível e próximo.
Em cada dia, vê-se cada vez mais o motivo, e não vê-lo é quase um pecado à própria existência deste. E quando tudo isso passar, ele ainda estará ali, só não será mais o seu motivo.

Ou talvez seja, já que o sentindo parou de se fazer à tempos, largou na minha mão os seus significados e correu. Foi na direção do vento que leva a bola de feno e a de fogo. E só lá, sem escrever, eu tenho feito algum sentido.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Awaken

Acordou com as costas empapadas de suor. Grudado nos lençóis da cama que imediatamente rangeu e se moveu um pouco pro lado.

Olhou pro lado vazio da cama, mas não achou ninguém. Só um sonho.

Levantou cambaleante. A dor na cabeça como ponta de lança ao lado da testa, subindo uma veia ali. Esfregou os olhos com a mão machucada e sentiu uma dor aguda, que o fez imediatamente desistir e imediatamente sentir coceira no olho.

Os pés frios encostaram no chão gelado e se assustaram como se estivessem quentes. E na verdade estavam, mas a experiência com sua vida sempre o fez acreditar que seus pés eram frios. Deixou a temperatura baixa do chão subir pelos pés e provocar uma puxada estranha no estomago. Começou a andar, como sempre, no escuro. Não gostava de acender as luzes. Conhecia o caminho muito bem.
Ao dar o segundo passo, esbarrou o ombro no canto de madeira da porta. Xingou baixo e continuou andando sem sequer apalpar em volta, em busca de mais armadilhas. Ainda andava decidido quando bateu o osso logo abaixo e a direita do umbigo na quina da mesa de vidro. Dessa vez xingou alto. Esfregou o machucado, que já sarava rápido. Só mais um pra coleção.

Começou a andar mais rápido, como se isso fosse sensato. Desviou por pouco da quina de um móvel no caminho, mas não deixou de ralar parte do dedão em uma falha que havia no piso. Desistiu de praguejar, apenas sentiu a dor, calado. Respirou fundo e olhou pra geladeira. Sua visão já se acostumando com a nova situação. Decidiu que um pouco de água gelada melhoraria as coisas.

Chegou à geladeira sem problemas. Abriu-a, e foi recebido de braços abertos. Várias coisas novas ali pra se explorar. Pegou uma garrafa rapidamente, tomando cuidado pra não derrubar, arrancou a tampa com facilidade e tentou beber. A água gelada passou pela garganta como um iceberg, como se não quisesse ser bebida dessa forma. A dor não deixou que ele sequer engolisse. Decidiu que iria ao banheiro antes, lavaria o rosto, adquirindo alguma dignidade. Depois voltaria à geladeira, com calma, e devagar, beberia a água. Imaginou até que sabor tinha. Pareceu até ter cheiro, e era bom.

Guardou a garrafa com cuidado, fechou a geladeira e percebeu que teria que se acostumar com a escuridão novamente. “A vida é curta”, pensou, e saiu andando rápido sem ver um palmo à frente.

Sentiu a cadeira do computador se aproximando e desviou com destreza, enquanto protegia o osso abaixo do umbigo do lado esquerdo, de um impacto com outra quina da mesa. Se sentiu vitorioso por um momento, mas percebeu que era nada mais do que não repetir um erro idiota.

Teve a decência de apalpar o espaço à sua frente procurando a porta do banheiro. Achou-a, tocando na parte onde tinham farpas, bem no canto. Não se machucou ali, incrivelmente, e abriu a porta com calma. Acendeu a luz, dando de cara com uma expressão débil de quem não fechou o olho suficiente mesmo sabendo que a luz viria diretamente pra ele.

Apoiou as mãos na pia, e chegou mais perto do espelho, olhando-se nos olhos castanhos como se quisesse que eles lhe dissessem algo.

Pelo reflexo de seus olhos, olhou para o buraco dentro de si mesmo. Lá, pendurados, estavam praias, bares, shoppings, cinemas, ruas e casas. Pareciam trapos pendurados em uma janela muito grande, e onde venta forte. Situações passageiras, mas faziam parte da vida que ainda havia ali. E, com sorte, talvez algumas passassem a tomar um lugar ali, mais pra dentro daquela janela.

Lavou o rosto pensativo e saiu do banheiro sem enxugá-lo. Dessa vez tomou cuidado pra não esbarrar em nada.

Subitamente, pensou em todo seu caminho. Enquanto voltava à geladeira em busca de água, pensou no trajeto de sua cama até o banheiro, e tudo o que aconteceu.

Viu o sol nascendo pela janela, uma bola de luz entre os prédios que impedem a visão do horizonte. Da janela aberta veio uma brisa de verão e acariciou seu rosto, passando pela rala barba que estava por fazer.

Riu da analogia de tudo isso com a vida.

Fez uma metáfora, sentou no computador e escreveu.