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sexta-feira, dezembro 28, 2012

Pra onde?

A sensação de irrealidade o acordou de um sonho agitado e ele sentiu como alguém que sai seco da piscina e se molha ao tocar o ar. Tudo parecia invertido.

Tonto, ele massageou as pálpebras por um breve momento antes de sua visão escurecer em um círculo digno de um desenho animado. Quando voltou a ficar claro, a cabeça latejou em desagrado óbvio. As mãos, recém saídas da frente dos olhos, tremiam e suavam frio. O fogo em seu estômago se manifestou e uma das mãos trêmulas se apressou em pousar em cima do órgão, que deliberadamente ignorou o carinho inútil e continuou ardendo como a cozinha do inferno.

Sentiu o celular vibrar no bolso, e sua perna imediatamente esquentou naquele ponto, provocando um rápido levanta-tira-ele-do-bolso-desbloqueia-lê, que foi prontamente interrompido pelo barulho alto que as chaves fizeram ao desabar do bolso para o chão de madeira. Ele tomou um segundo se concentrando em xingar a mãe de um molho de chaves que provavelmente era órfão, e então voltou-se novamente para a tela do telefone; Não havia nada ali. Nenhuma mensagem ou ligação. Nem sinal existia naquela porcaria. Estava sozinho e nem um dispositivo móvel cooperaria para corrigir essa situação.
Ou talvez não houvesse o que corrigir, ou como corrigir.

Olhou em volta rodando mais do que os 360 graus que pretendia, rápido demais, tonto demais e débil demais para o próprio gosto. A sensação de quase cair era irritante, tanto quanto o ambiente. Este, consistia em um cômodo apertado e abafado, com um ventilador que soprava uma baforada quente do ar velho e empoeirado que era facilmente visível pelo feixe de luz alaranjada que atravessava o vidro da janela pequena e fechada na parede à esquerda do rapaz.

Ele apressou seu passo na direção do suposto ventilador e o chutou com meia raiva, tendo que se concentrar em não cair de tonto com o esforço. Um espirro se formou no instante em que a poeira se moveu no ar e foi interrompido pelo susto com o barulho eletrificado do fio, que ligava o ventilador à tomada e se partira enquanto o objeto se arrastava pelo chão do quarto e agora faiscava estranhamente.
Com o espirro frustrado, ele só tossiu e cambaleou até a janela, abrindo-a com a pouca força que parecia lhe restar, e se deparou com uma visão embaçada e o barulho de uma cigarra solitária ao longe. Os olhos piscaram e percebeu que nunca tinha olhado por aquela janela antes. De fato, nunca tinha estado naquele lugar. Não fazia ideia de onde estava ou pra onde ir. Ou do que fazer.
O som da cigarra desapareceu.

A sensação de incapacidade aumentou enquanto ele se levantava para cima da janela, e nela ele sentou, com as pernas pra fora. Uns minutos depois, quase espirrou novamente, mas misteriosamente se frustrou de novo. Os olhos lacrimejaram com a tentativa, e ele saltou dali, de olhos mareados, aterrissando solitariamente em lugar nenhum.

Acompanhado pela dúvida a cada passo, ele caminhou vagarosamente.

segunda-feira, novembro 12, 2012


Um estalo em seu ombro se fez ouvir e o alertou que a primeira gota de uma chuva grossa finalmente começava seguir seu caminho rumo ao chão. Por um instante ele ponderou sobre rumo, mas outra gota, parecendo querer impedi-lo de pensar, fez questão de cair em seu olho – ecoando pro mundo na forma de um xingamento alto e muito bem-vindo.

Em poucos segundos a chuva já o havia encharcado, mas já não se importava. Era o melhor clima que ele presenciava em dias. Continuou parado como uma estátua, sua sombra, turva por culpa da água e dos trovões que volta e meia faziam oscilar a pouca luz que existia ali, combinava com sua visão. Uma visão turva.

Ele piscava com força, tentando retirar das pálpebras o peso da água e do sono - acumulado devido às severas noites mal dormidas. O corpo parecia mais pesado também e ele sabia muito bem que não era por culpa da sua roupa molhada. Ignorou esse pensamento e arrancou a jaqueta, jogando-a aleatoriamente para a areia que o cercava. Ela caiu pesadamente, acompanhada de um estrondo que anunciava o primeiro trovão do dia. O primeiro de muitos.

Passou a mão pelos cabelos, como se isso fosse deixá-los no lugar. Afrouxou a gravata e abriu o primeiro botão da camisa, enquanto os pés faziam o velho movimento de arrancar os sapatos dali. Pisou na areia daquela praia ainda calçado das meias. Ao longe, algum pássaro corajoso gritou, provavelmente com o esforço de voar naquelas condições adversas - ele pensou. Pensou em gritar algo de volta, talvez uma palavra de coragem para o pássaro guerreiro, mas se contentou em só dar de ombros enquanto se sentava.

Sentou e tudo ficou branco, mas foi difícil se concentrar nisso naquele momento.
A verdade é que, quando um raio cai perto a ponto de toda sua visão ficar branca, você não sabe muito bem se pensa “o que diabos é isso?”, se ouve um estrondo absurdamente alto ou se só se concentra em ficar totalmente desnorteado. A outra verdade – pois não existe só uma – é que ele quase não se apegou ao fato em si, afinal, já havia passado por aquilo antes, e se concentrou em gargalhar à partir do instante em que percebeu que estava acontecendo de novo. Também não se concentrou na probabilidade ínfima de isso acontecer duas vezes com a mesma pessoa, pois estava bastante ocupado se concentrando nas conseqüências daquilo ter acontecido, afinal.

E a conseqüência foi que o tal raio havia atingido um poste atrás e assustadoramente próximo – e um dos poucos que existiam em volta daquela praia em particular – deixando-o totalmente apagado e com uma penca de fios pendurados faiscando. De fato, todos os outros postes em volta se apressaram em seguir o rumo do amigo e logo a praia estava quase que totalmente escura.

E então não se concentrou em mais nada.

Passou de sentado para deitado, ainda gargalhando, e juntou as duas mãos abaixo da cabeça, ensaiando um travesseiro de pouco efeito. Fechou os olhos e agradeceu silenciosamente a ninguém em especial por aquela noite. Não sabia para que tinha ido até aquela praia até este momento, mas agora tudo parecia paradoxalmente claro naquela escuridão.
Um vento repentino soprou o que faltou do seu sussurrado “boa noite”, que ele adormeceu antes de conseguir terminar de proferir.
Precisou de chuva forte, raios, escuridão e vento na cara, mas finalmente conseguiu descansar.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

We're not in Kansas anymore

Gritava com uma garganta arranhada, produzindo um som rouco, mas muito, muito alto. Era ensurdecedor.
Não sabia bem por que; A cabeça doía, o corpo parecia fraco. Algo em seu corpo tremia involuntariamente, mas a velocidade com que corria não o permitia identificar o que era. Ele era um borrão na paisagem que um dia fora urbana. Um raio em linha reta, entre os escombros.
Sentia uma espécie de raiva, uma fúria guardada com tanto zelo que mal a reconhecia.

Essa raiva se agarrava naquele corpo veloz, quase arrancando sua pele enquanto se deslocava. Pesava.
Adicionando peso, havia uma tristeza estranha. Não a conhecia mais, também, apenas sentia. Sua massa supressora pressionava o coração, que a essa altura parecia pequeno e quase incapaz.

Como ele conseguia correr assim? Ele não tinha vontade. Não sentia vontade de nada naquele momento. Apenas continuava em linha reta, corpo curvado, pernas se movendo a sei lá qual freqüência, pés quase não tocando o chão.

E então não estava. Era o mundo que corria embaixo dele. Uma sensação esquisita de falta de controle sobre as coisas, sobre si mesmo. Não era acostumado com essa sensação, mesmo que não fosse exatamente nova para ele. Enfim.

Sua visão embaçada não focava de jeito nenhum, não parecia captar tudo que se passava ao seu redor. A audição era quase nula, embora muito barulho acontecesse. O mundo parecia estar com algum problema. Parecia menos real... menos real do que um sonho.
Uma preocupação descomunal atacava sua mente, o coração acelerava e o estomago queimava como a fogueira que carboniza a carne no enterro de um guerreiro, levando aquele corpo cansado para o infinito.

Era muita coisa acontecendo, muito para sua mente. O cérebro começava a pifar, esquecia de funcionar direito. Esquecia. Esquecia de si...

Veio a dor. Atravessava o crânio desprotegido, sacudindo-o com tamanha leveza que um observador mal perceberia qualquer movimento. Era quase em câmera lenta.

Assim como o mundo. Era tudo tão rápido, e tudo tão lento. Parecia um filme que passa rápido demais e que só se percebem alguns quadros. Assimilar está difícil, devagar. Cada imagem demora a fazer sentido.
Os sentidos estão confusos.

Confuso, confuso. Uma tontura generalizada parece invadir o rapaz. Ele está cambaleando, capotando, caindo. A câmera em primeira pessoa capta o chão/horizonte/céu/mãos/poeira/céu/chão e pronto. A tosse confirma que ainda existe um chão abaixo, e é poeirento. Tossiu novamente, ainda rouco. Só então percebeu que tinha finalmente parado de gritar.

Se apoiou nos braços enfraquecidos e içou o corpo até estar sentado.
Decidiu que pra onde olhava era “pra frente”, e teve certeza que estava olhando para frente. Meio vesgo e totalmente débil, via algo se aproximando. Voava em sua direção. Parecia vir rápido, mas não chegava. Só estaria ali de repente, cravado nele, fosse o que fosse.

Nada estava explicado, a confusão do mundo era tal que parecia impossível conseguir respostas para qualquer coisa. Ele tentava definir novos conceitos para o que seus sentidos captavam, em busca de uma explicação. Mania essa de querer entender.

Tateava chão, concreto, espinhos de alguma planta. Sentiu dor. Conhecia a dor, e se sentiu feliz por conhecer algo. Se sentiu triste logo depois.
Algo estava errado, e talvez fosse tudo.

Turbilhão turvo. Então o nada. Precisou e adormeceu.


domingo, abril 10, 2011

A Arte de Continuar II


O cavalo, coitado, há muito estava perdido. Não havia sobrevivido a todo esse percurso, o pobre animal. Diferente dele. Ele sobrevivia. Até vivia.

Suas botas grossas, de sola emborrachada, respingavam lama marrom para todo lado, e faziam um eco estranho do chacoalhar da água presa em algum lugar dentro delas. A parte de trás da sola, no calcanhar, era severamente mais gasta do que o resto, talvez por seu modo tão singular de andar pelos caminhos.

A velocidade de sua viagem havia sido lamentavelmente comprometida desde que seu cavalo sucumbira a cansaço e fome. Talvez tenha se descuidado do bicho, achando que finalmente estava chegando a seu destino, e falhou miseravelmente ao calcular isso. Havia ficado mais distante ainda. Provável que até impossível.

Mas ele se recusa a desistir, de qualquer forma. Viveu até agora enfrentando, e sim, agüentando, tudo que veio pela frente. Sem temer de qualquer sofrimento que possa ser causado a ele no caminho. Sobreviveu até agora, e até viveu.

Neste ponto da sua busca, o guerreiro parou para encarar essa parte especialmente difícil do caminho, e ficou agradecido aos deuses por seu cavalo ter sido poupado deste mau bocado. À sua frente, um calor que provocava um nó de sofrimento na garganta anunciava o que seus olhos enxergavam com facilidade: um túnel de fogo e carvão; lava escorria de alguns pedaços do terreno e descia até o abismo que completava a paisagem até onde a vista alcançava. Não havia outro caminho. Era cair no abismo de lava ou seguir no túnel de fogo. No fim deste túnel, visível apenas para os olhos treinados, havia... nada. Só via um vazio lá no fim, e sabia então que terminaria sua jornada no nada, se conseguisse terminar.

O raciocínio foi tão rápido que nem pareceu ter acontecido.
Foi fácil decidir o que fazer, afinal, ele seguia em frente implacavelmente há tempos e era bastante experiente nisso. Ensaiou o primeiro passo em frente, já arrastando parte do calcanhar estragado da bota no chão.

O mais difícil, desta vez, foi aceitar que sua jornada não iria terminar com uma vitória. Mas teria que terminar e estava se preparando para pelo menos seguir o caminho vitoriosamente, olhando para frente.

Arrancou um dos botões de cima de sua camisa negra e úmida e logo ia dobrando as mangas. O caminho até o nada seria bastante quente.

Ele sobrevivia. Chegaria lá sem botas e com os pés queimados, mas chegaria. Até o fim do abismo.

segunda-feira, março 28, 2011

So long, So long


O motor do carro roncava quase tão alto quanto a música nos ouvidos do motorista. A música estava bastante alta, e incomodaria qualquer outra pessoa que estivesse dentro daquele carro, se houvesse alguma.

A estrada noturna permitia visibilidade limitada da paisagem, mas ele gostava assim mesmo. Durante a noite, apenas o vento entrando pelas janelas e o som da sua música já eram beleza suficiente, então paisagem nenhuma era necessária.

Era bom demais sentir o vento forte sacudindo sua camisa de botões, leve e solta no corpo. O cabelo curto praticamente não se movia, mas dava pra sentir os sopros passando e acariciando sua cabeça, já fria em função do ar gelado.

A blusa leve, de flanela e com alguns botões faltando, mal protegia do frio. Fazia 7ºC numa noite que ventava, mas ele dobrava as mangas até os cotovelos assim mesmo.

Os braços se moviam pouco enquanto as mãos batucavam levemente no volante ao ritmo leve da música, alternando em imitar piano ou violão.

O avançar da kilometragem das placas indicava a proximidade à uma cidade. Uma leve excitação, acompanhada de uma revirada leve no estômago, começaram a digerir a informação: estava finalmente chegando. Mais de vinte horas dirigindo, com algumas paradas rápidas pra comer, e cochilos de apenas um par de horas no banco de trás do carro. Estava finalmente a poucos kilômetros de lá. Dela.

Como que sentindo o momento, a música seguinte deu um tom de reencontro, e uma leve nostalgia tocava o violão. Ele afinou o rosto numa expressão um pouco séria. O maxilar ficou rígido, esperando a curva terminar.

Todo o barulho de música e motor, pareceu se esvair. Nada era ouvido, nem mesmo o clichê das batidas de seu coração. As mãos firmes apertavam o volante e as sobrancelhas se juntavam lentamente, acompanhando o progresso rápido pela curva, que já parecia ser infinita.

E então a reta finalmente apareceu, o volante voltou para sua posição original e um sorriso se abriu.

A música voltou, mais animadora do que nunca, e até o motor do carro pareceu comemorar.

À frente, descendo mais uns poucos kilômetros, se viam as luzes de uma cidade. Os pontos de luz azulada e amarelada ao longe pareciam estrelas, e ele acelerou de encontro ao seu destino.

Depois de tanto tempo, e de tanta espera, finalmente ele estava chegando. Se aproximando de seu abraço quente e do cheiro maravilhoso que sentiria. Chegando cada vez mais perto do sorriso que o fazia sorrir automaticamente, mesmo quando era apenas uma lembrança.

Gargalhou uma comemoração, parecendo fazer parte da grande sinfonia do momento.

Pisou mais no acelerador ao lembrar do beijo, e então já se sentia em casa.

terça-feira, outubro 05, 2010

Muralha - Cap. II

Essa é a segunda parte de uma história que eu escrevi e postei alguns dias atrás.
Sim, ela é grande pra cacete. E sim, a parte anterior também é. Mas eu asseguro que a leitura é fácil e rápida.
De qualquer forma, caso haja realmente interesse, aconselho que leia a primeira parte desse conto se quiser entender alguma coisa do que está acontecendo.

Você pode ir diretamente pra lá:

Se tiver coragem, boa leitura.


-- \\ --

(...)

Desci rapidamente os lances de escada que levavam até o térreo onde o portão se abriria. Comecei a pensar em como começar alguma conversa com os bandidos, como fazê-los entender que foi um grande erro ameaçar a nossa cidade. “Oi caras maus, vocês acabam de fazer a pior merda de suas vidas vindo aqui bater no portão da minha cidade e incomodar o meu tão raro sono! Meus parabéns! Tickets para os quintos dos infernos para todos! Venham pegar!” – Nah. Não sou esse tipo de cara. Fazer ameaças de motherfucker... não é o meu estilo.
Talvez eu fosse só esperar que eles me irritassem o suficiente pra que eu fosse violento. Mas isso também não era muito a minha cara. Sou bastante pacífico. De qualquer forma, lutar irritado não ia me favorecer.

Enquanto eu pensava, me surpreendi ao me ver de frente ao portão. Desci rápido demais, não deu tempo de pensar em diálogo. Talvez eu devesse só ir direto ao ponto.

Finalmente acenei para cima, onde eu sabia que tinham sentinelas e que eles passariam a mensagem pra lá. Um giro com a mão, dedo indicador apontando pra cima – “Manda ver” era como diziam antigamente. Bem antigamente mesmo.

Um estalo metálico alto e os grandes portões de metal foram se afastando, se arrastando para o lado, pra dentro da muralha espessa. Abriram o suficiente para uma pessoa passar.
O sol ainda não saía no horizonte, então de onde eu estava ainda era escuro. A gangue ainda não me via, mas eu os via.
Droga, o líder com a arma acabava de se colocar atrás de três dos cabeludos, e um deles era o do machado. Não daria pra atacar ele primeiro.

Andei até o lado de fora.

No alto da muralha, na sala de comando, Milena respirava fundo. O portão já estava meio aberto e logo eu passaria para fora. Ela cruzou os dedos e apertou os lábios em uma linha reta. Eu não vi nada disso. Mas sei. Somente sei. Logo ela correria da sala e iria se juntar aos arqueiros na muralha.

Cheguei do lado de fora da muralha e esperei o portão se fechar atrás de mim antes de dirigir a palavra a algum deles. Todos pareceram apreensivos e surpresos por apenas um homem ter saído da fortaleza.

O trovão produzido pelo portão se fechando pareceu acordá-los de seu transe, e o líder se pronunciou:
- Hahaha! Só mandaram você aqui pra negociar nossa entrada? Ou esses caipiras acham que somos canibais e mandaram um sacrifício? Hahahahaha! – sua risada foi copiada pelo resto do bando.
- Eu agradeço se você puder parar de rir, seu bafo podre deve estar incomodando meus arqueiros no alto da muralha – apontei pra cima com a cabeça.
Todos eles olharam pra cima e suas risadas murcharam.
O líder cuspiu no chão para o seu lado e me olhou desafiador.
- Seus arqueiros? Então, senhor-lider-e-sacrificio, o senhor deve saber que essas porcarias não vão acertar a gente aqui, não com isso – apontou para placas de metal que eles carregavam penduradas nos ombros. Imitações de escudo.
- Minha intenção é que eles peguem algum idiota de vocês que tentar fugir. – falei paciente.
Eles olharam uns pros outros.
- Idiota? Não conhecem essa palavra? – eu provoquei. Jurava que um deles começava a espumar pela boca.
- Bom, parece que você veio querendo confusão não é, rapazinho? – falou a voz grossa do homem do machado. Eu tinha sérias dúvidas de que ele sequer sabia como proferir sons. – Deixa eu acabar com esse aqui, chefe? – ele se virou para o cara da arma.
- Vai em frente! Hahaha! Ele que sirva de exemplo para os outros caipiras.

Ajeitei minhas mangas. Não saquei a espada ainda. Ela não seria muito útil contra um machado desse tamanho. Eu teria que ser esperto e utilizar outros recursos.

O grandão fechou a cara e partiu em carga com seu machado levantado, vindo em linha reta.
Muito fácil.
Seu machado descreveu um arco totalmente reto em direção ao meu corpo, e provavelmente me partiria ao meio se eu tivesse ficado no mesmo lugar. Esperei até o último instante para desviar e esquivei para trás e pra esquerda, na diagonal, só arrastando os pés. Meus braços se moveram como relâmpagos enquanto duas adagas voavam das minhas mangas e atingiam a mão direita do grandalhão.

O grito dele foi alto e pareceu ser mais assustador que os ferimentos que foram causados nele. Sua mão direita agora era inútil e seu machado estava fincado no chão onde eu deveria estar.
Ele ainda tentava virar na minha direção quando meu pé voou na lateral de seu rosto. Consegui sentir o maxilar dele estalando e no instante seguinte o homem estava estatelado no chão levantando bastante poeira. Esse talvez não acordasse mais, dependendo do quão resistente ele era ao veneno que eu costumava colocar nas minhas adagas.

Só mais oito.

Os dois da frente, ainda de olhos arregalados, tentavam sacar suas pistolas. Se eu bem me lembro, uma das regras de combate era não mostrar desespero. O oponente perde respeito pela sua habilidade. Esses dois com certeza estavam desesperados. Deviam estar a mais de uma semana sem usar suas drogas da confiança.

Até agora tudo tinha sido tão rápido que ninguém sequer tinha tentado usar sua imitação de escudo.

Com quatro passadas rápidas eu me coloquei entre os dois, que mal puderam me ver saindo do meio da poeira, não fosse o rastro que deixei no ar. O da esquerda se afobou e tentou atirar, mas sua arma falhou. Sem pólvora, como eu previ.

Sorrindo, me lancei para o da direita, não querendo arriscar que esse disparasse também. O bastardo ainda não tinha levantado a arma quando eu o atingi com uma cotovelada no queixo. Suas pernas fraquejaram imediatamente e eu segurei seu corpo pelo braço estendido em cima do meu ombro, apontando a arma dele para o bandido cuja arma não funcionava. Testei o gatilho e BLAM, essa sim funcionava. Mal, mas funcionava.
O tiro atingiu o rapaz no peito e o derrubou com um baque doloroso.
Pelo cheiro no ar, percebi que eram balas de sal. Deve ter machucado pouco mais do que a queda, mas ele era um viciado fraco e permaneceu no chão.

Eu ainda segurava o dono da arma, que já parecia desmaiado no meu ombro. Tudo estava parecendo mais fácil do que eu tinha imaginado. Talvez esses patifes nunca tivessem enfrentado um combate de verdade.
Por cima do ombro do desmaiado, vi o chefe apontando sua própria arma para mim. Mas eu estava com as costas protegidas pelo cabeludo desmaiado e senti dois impactos nas costas. Os impactos coincidiam com o som alto dos estouros da arma do chefe sendo disparada.
O cheiro de pólvora ficou forte no ar, misturado ao odor do sangue e suor do defunto às minhas costas.

“Bom, já foram duas balas. Falta uma.”

Arremessei o corpo molenga no atirador e tive tempo de notar a formação à minha volta: Três deles abatidos. O chefe com uma bala na arma e ainda caindo com o defunto em cima de si. Mais cinco vindo com facões nas mãos. Dois são punks cheios de piercings, três cabeludos, um deles não sabe nem segurar o facão direito. O outro mal consegue colocar uma perna na frente da outra pra correr. Me senti enfrentando uma trupe de crianças com pedaços de isopor na mão.

O primeiro punk do moicano era o mais rápido e cruzou espadas comigo primeiro. Não que ele realmente tenha percebido que eu tinha sacado minha espada, dada a expressão de surpresa dele antes de ser atingido por um chute veloz na virilha enquanto as espadas soltavam um som agudo no ar.
Passei por esse só com esse chute e encarei os próximos dois segurando minha espada com as duas mãos.

A falta de organização de batalha deles me fez sentir vergonha de ser um ser humano por uns instantes. Eles atacaram ao mesmo tempo, e tudo que eu tive que fazer foi rolar entre os dois para que eles chocassem de leve seus facões enferrujados. Tive espaço atrás deles, e o líder começava se levantar.
Mas a vantagem era minha: haviam três idiotas servindo de escudo entre mim e a arma do líder deles.

Quando terminei o rolamento, o outro punk, com o facão um pouco menos enferrujado, me esperava com uma cara de prazer sádico. Seu braço baixou a lâmina veloz contra meu ombro esquerdo, mas ela nunca encostou nele.
Usando minha espada como um escudo, eu interceptei a lâmina inimiga ao mesmo tempo em que levantava com o impulso de um pulo. O arranhar da katana soltando faíscas por toda a extensão do facão terminou no grito de dor do rapaz enquanto perdia os dedos que seguravam a arma. Por sorte minha espada só pegou de raspão em seu rosto, fazendo um aranhão reto ali, mas nada grave.

Não tive tempo de finalizar este também, já que o último dos rapazes já me atacava.

O ataque veio duas vezes com rapidez, e percebi que esse tinha o mínimo de treino com a arma que usava. Talvez fosse um açougueiro antes de ser um maldito viciado que entrou pra uma gangue de derrotados em alguma cidade podre. Seus ataques eram retos e ele tinha o braço forte.

Usei o primeiro ataque pra ganhar espaço na direção da moto, passando do lado dele. Consegui me virar agora e encarar a distância que eu percorri enfrentando os rapazes.
Agora eu estava de frente pra todos novamente, lutando com esse último enquanto os outros iniciavam outro ataque. Eu tinha que acabar com ele rápido antes que todos me cercassem demais. Ao fundo, o último homem, o chefe, tentava mirar com sua arma, mas os outros ainda tampavam sua visão. Ao menos ele tinha sido esperto suficiente para pegar seu escudo se proteger de uma possível chuva de flechas.

Os ataques sucessivos e agressivos do último continuavam, enquanto eu pensava em como acabar com todos de um modo mais rápido.
Decidi acabar logo com esse que estava dando trabalho.

Comecei a atacar pra testar a habilidade de defesa desse. Ataquei pelos lados, como quem corta um mato alto pra ganhar espaço. Ele se defendeu bem da maioria dos ataques. Com uma espada na mão esse cara poderia ser perigoso, mas a espada estava em minhas mãos e eu tinha a vantagem do alcance maior. Soltei um chute veloz por baixo do sobretudo e ele conseguiu se afastar um pouco, então usei a vantagem da espada para dar um corte fundo no antebraço dele. Ataquei com a espada só na mão esquerda e estoquei, produzindo o corte que imediatamente começou a sangrar generosamente.
Por um instante ele olhou para o braço, e foi tempo demais. Seu cérebro deveria já estar comprometido pelas drogas, e ele demorou muito a reagir.
Chutei sua mão e o facão voou de leve, sendo agarrado pela minha mão direita, e finalizei a luta com um giro e dois cortes grandes no tórax do corpo que caía.

O sangue dos cortes ainda voava durante o giro enquanto eu observava dois deles vindo na minha direção, já bem próximos.
Depois desses, só o chefe armado. Um deles ficou um pouco para trás tentando não pisar nos corpos a sua frente.

Dei uma passada larga para a direita, ficando de frente para os dois atacantes e ainda protegido da mira do chefe lá de trás.

Os dois na minha frente já tinham mostrado que não sabiam como usar uma arma branca, e tudo foi confirmado no momento em que atacaram.

Um deles tentou me atacar pelo lado esquerdo enquanto eu media forças contra seu companheiro, utilizando minhas duas armas como uma tesoura.
Um sorriso quase aparecia no seu rosto quando ele percebeu que não havia me acertado. Seu ataque foi interceptado pela ponta de minha bota, onde havia uma placa de metal especialmente localizada pra esse tipo de situação. O impacto fez a lâmina inimiga voar para cima em um ângulo esquisito, e os dois se assustaram com a trajetória dela.

Foi tempo suficiente pra que minha “tesoura” atravessasse a defesa do inimigo e destruísse qualquer capacidade dele de respirar.

Ignorei o atacante que tentava recuperar seu facão enferrujado e disparei na direção do chefe armado, que agora não tinha nenhum empecilho em sua mira.
Disparei com uma fúria súbita, correndo em ziguezague com a katana posicionada nas costas do meu braço e o facão em riste na outra mão. Joelhos flexionados e postura curvada dando impressão de uma bala indo na direção do inimigo.
O assustado projeto de líder tentava mirar a arma enquanto recuava para mais perto da muralha. O escudo que protegia a cabeça e as costas tremia, e a falta de equilíbrio dificultava mais ainda a mira. Ele não queria perder o tiro e não queria ser atingido por uma carga de fúria como a que ele testemunhava.
Ele deu mais um último passo pra trás quase tropeçando e com uma face que duvidava se eu era louco ou não e que por isso temia desesperadamente por sua vida.

Bradando a vitória, eu berrei “AGORA!” enquanto arremessei o facão contra o homem armado.
E com vários sons de madeira pontiaguda cortando o vento, o combate finalmente terminou.

O líder deu um salto estranho para o lado para desviar do facão que mirava seu tórax e não teve tempo de sequer atirar. Ele largou o escudo na tentativa de não dar de cara com o chão ao se jogar. Neste momento ele se tornou um alvo para meus arqueiros no alto da muralha, e o sinal estava dado.

Apenas três flechas o atingiram. Ele estava perto demais da muralha, e aquele tiro tinha um ângulo muito difícil. Era necessário ficar em pé em cima do muro e mirar quase para seus pés para acertar. Só os mais experientes e corajosos sequer tentariam.

Olhei pra cima curioso e identifiquei os arqueiros que haviam atingido o chefe da gangue. Eu esperava apenas duas flechas nele, e não me surpreendi ao ver Milena e Jorth em pé na muralha com arcos nas mãos. Ao lado deles, essa sim a surpresa, estava o rapaz que me acordou. O que tinha os joelhos tremendo.

Os outros arqueiros haviam feito uma peneira com o homem que eu havia deixado para trás enquanto tentava alcançar seu facão. Seu corpo como um porco-espinho e sua arma em uma posição estranha perto de seu braço.

Me voltei para o campo de batalha e fui até as motos.
Nos compartimentos nos carrinhos das três motos eu encontrei uma coleção bizarra de itens estranhos de metal com utilidade duvidosa, a maioria provavelmente para machucar pessoas e preparar as drogas que eles usavam.
Também encontrei vários pedaços estranhos de carne que talvez seja humana e coisas que não gostaria de narrar.

No fim, a única coisa útil que encontrei foi exatamente o que procurava: cordas.

Quando os portões se abriram, Jorth foi o primeiro a sair e correr até onde eu estava.
- O que você está fazen- Aaaah, sim. – Ele logo respondeu a própria pergunta. – Vai jogar as motos penhasco abaixo com eles amarrados nelas.
- Bom, você pode me processar por poluir o rio lá abaixo do penhasco se quiser. – respondi, me divertindo.
- Eles eram caras horríveis mesmo não é? – Ele constatou ao revistar os compartimentos que eu já havia revistado.
- Eram a escória. O pior tipo de gente que existe, e talvez a maioria do que existe.
Ele se calou com um semblante sério.
- Você pode terminar aqui pra mim? – falei de repente. – depois peça pra uns sentinelas levarem essas porcarias até o penhasco. Talvez seja bom eles encararem um pouco da realidade fora das muralhas.
Não esperei resposta pra me dirigir para dentro da cidadela.

Fui surpreendido por um abraço repentino no instante em que atravessei o portão, quase achando que tinha caído em uma armadilha.
Um beijo nos lábios e um cheiro maravilhoso fizeram-se entender e eu relaxei no abraço.
- Isso foi perigoso demais! Eram nove! – A voz de Milena falava baixo da boca colada no meu pescoço.
- Eles lutavam como crianças e isso era obvio. Além do mais, eu precisava de me exercitar um pouco, to ficando destreinad- Ei, quer parar com esses tapinhas?
- Pe-ri-go-so! - ela disse cada sílaba separada por um tapinha no braço.
Já sorrindo, eu entrei em uma espécie de transe ao encarar o rosto maravilhoso dela. A luz que agora entrava diretamente do portão aberto atrás de mim reluzia nos olhos verdes dela, e evidenciava sua cor. Era um verde claro e forte, que não podia ser ignorado seja qual fosse o momento em que seu olhar passasse pelo rosto dela. Era pra onde eu olhava quando queria simplesmente parar de pensar. Encarava aqueles olhos por horas e o tempo que se passava nunca era perdido.

- Senhor? – uma voz me acordou de repente.
- Ah, você. Sempre me acordando – falei amistosamente. A voz dele não tremia agora.

Ele me encarava com uma expressão de quem sentia orgulho demais de si mesmo pra sequer reparar no que eu estava dizendo. Eu podia ter dito “Oi, vou te matar neste instante só por que eu to entediado, ok?” e ele continuaria com a mesma expressão besta.

- Obrigado pela chance, senhor. Agora eu entendi o meu trabalho, e não vou ter mais medo. – Ele proferiu num tom sério de quem tinha ensaiado discurso.
Eu sorri largamente. Com um certo incômodo, larguei o abraço de Milena para colocar as mãos nos ombros do rapaz. Ele merecia.
- Todos têm seu teste pessoal, rapaz. Que confere se você está realmente preparado para a vida que escolheu. E me parece que você passou no seu. Qual é o teu nome, rapaz?
- É Ulric, senhor.
- Pois então Ulric. Sentinela Ulric. Bem-vindo à muralha.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Muralha - Cap. I


- Senhor! Senhor! – Foram as primeiras palavras que ouvi antes de terminar de acordar naquela madrugada fria.
- Diga homem! – bradei, sem humor algum. – Pára de gritar no meu ouvido, maldito!

O rapaz devia ter apenas uns dezessete anos de idade. A voz dele ainda falhava, chegava a ser um tanto ridículo. O coitado realmente nunca devia ter visto nada como aquilo em toda a sua pequena vida. Esse tipo de confusão só era vista pelos protetores da cidade, enquanto os habitantes normais se limitavam a ficar sabendo as notícias.

Não que ter esse tipo de visita ao nosso forte fosse incomum. Nossas muralhas com iluminação (rara neste mundo atualmente) espalhada por toda sua extensão e a mais de 20 metros de altura chamava atenção de grupos de viajantes com pouco rumo (o que era bem mais comum do que energia elétrica), gangues e/ou mercadores. Gangues e mercadores eu particularmente considerava a mesma porcaria: todos tentavam te roubar de uma forma ou de outra.

Voltando ao garoto, ele tremia tanto quanto sua voz adolescente enquanto falava:
- Senhor, aqueles homens estão com pressa e parecem perigosos! Por favor, senhor!
- Meu rapaz, – eu comecei, calmamente dessa vez. Talvez se alguém nessa maldita sala estivesse calmo o moleque conseguisse voltar a ter culhões – você está com frio? – esperei sua negativa com a cabeça antes de continuar – então pelo amor dos deuses, faça suas pernas pararem de fazer barulho enquanto tremem, pelo menos.

Ele me olhou com uma expressão engraçada que lembrava meu cachorro antigo, o Jack.
Mas o Jack teria cuspido naqueles mequetrefes além da muralha se pudesse cuspir e se não tivesse morrido há anos.

- Agora sim, moleque. Me diz quantos são lá embaixo? – continuei, quase rindo à lembrança do velho Jack.
- N-Não contei, senhor.
- Então pra que aquelas porras de aulas todas que você teve durante a sua vida, garoto?! – me fiz de irritado – Devia ter ido pra maldita aula de crochê com aquela sua irmã! Haha! – Ok, não agüentei não rir dessa vez.

Levantei da minha cama sem pressa. Afinal, era uma das poucas camas de colchões com algum conforto hoje em dia. Privilégios de ser “general” de uma das cidadelas que ainda persistem na sobrevivência humana.

General? Sim. Mas militar não. O título, nesses tempos depois de o mundo ter “seguido adiante” (depois do fim da maioria da população humana deste planeta) não é mais de cunho somente militar.
O fato é que as primeiras cidadelas eram militares, sim. Fortes que cercavam grandes cidades e eram controlados por homens treinados no combate militar e estratégia avançada. Eram generais de verdade.
Com o tempo as pequenas cidades também formaram suas cidadelas, suas fortalezas, como puderam. O título dado aos que comandavam as ações de defesa na fortaleza acabou sendo general também, mesmo nessas cidades pequenas com pouca instrução militar.

É claro que as grandes cidades foram as primeiras a serem atacadas. Alvos imensos e óbvios, com suas grandes luzes, seu cheiro de comida abundante e o resto de diversão que ainda se podia ter neste mundo devastado. A busca dos henki pela energia humana levou seus maiores clãs a atacarem as grandes cidades logo que eles apareceram neste mundo, e sabe-se lá de onde vieram (Não que isso importe alguma coisa agora que não existe mais nada a ser feito. Mas isso é uma historia pra depois). Logo, essas grandes cidades foram desaparecendo do mapa, restando apenas a cidade-forte que foi construída depois do início da guerra. Da guerra contra os henkis, estou falando, e não da guerra entre os humanos. Nossa, como estou me alongando nessa explicação.

Resumidamente, o título de general que era originalmente militar, foi “vulgarizado” e espalhado a todo chefe de cidadela que existe, e a maioria dos que existe atualmente de militar só tem o armamento (também bastante raro. A maioria da pólvora que se consegue é utilizada em uma forma rudimentar de produção de energia, em combustão e coisas que não saberia explicar perfeitamente). A organização militar já não existe mais há algum tempo. Deuses sabem, organização quase nenhuma existe.

Mas voltando ao que interessa, eu levantei de minha cama confortável. Com calma, vesti o casaco grande, que ia quase até o chão, e as luvas de couro. Já estava com a calça grossa e as botas, pois sempre dormia preparado para me levantar rapidamente. Raras vezes precisava realmente fazer isso, mas é sempre bom estar preparado. Às costas, vinha a grande e afiada espada. Era fina, como aquela dos antigos japoneses, e mais longa que o braço de um nadador.

O garoto pareceu se acalmar ao som de minha espada na bainha nas minhas costas. Coloquei as mãos nos ombros dele:
- Se quiser ter uma espada dessas um dia, filho, vai ter que fazer essas varetas pararem de tremer, ok? Pernas são a base de um bom lutador. Hahaha!
Todos na sala riram nervosamente e o clima no quarto pareceu ficar mais leve de repente. Só então eu parei pra olhar o resto das pessoas no recinto, além do garoto desesperado. Eram mais quatro dos sentinelas das muralhas, responsáveis por observar quem chegava perto da cidadela ao longe.

O caminho até a muralha frontal era longo, então demoramos uns quinze minutos de caminhada. As botas fazendo barulho no chão metálico, atraindo alguns olhares que logo paravam no meu rosto e provocavam um pequeno aceno de mão ou cabeça.
Eram trabalhadores das mais diversas áreas ali, trabalhando durante a madrugada. Se esforçando para manter a cidade funcionando bem para o bem de todos. A pequena porção da humanidade que eu realmente considero “humanidade”. Essas pessoas confiam em mim, na minha liderança, para proteger essa cidade e me respeitam por quem sou. Não fazem idéia do quanto eu as respeito e fico honrado em ajudar a protegê-las. Não fossem essas pessoas, eu não teria crédito algum no ser humano e talvez estivesse aí pelo mundo invadindo pequenos covis de henkis ou lutando contra gangues de humanos desgraçados, tentando fazer minha vida ter algum significado. Provavelmente estaria morto muito antes de chegar aos trinta sem ter encontrado sequer um coração bom nesse mundo.

Ao chegar na parte frontal da muralha, em frente à sala que dá visão exatamente acima dos portões, encontrei Lisandra. Uma guerreira exemplar, devo dizer. Era morena de sol e alta, de rosto sério a despeito do formato delicado. Diferente dos olhos verdes, o cabelo negro e até a cintura era totalmente diferente do de sua irmã mais nova, Milena, que tinha os cabelos lisos até os ombros. Eram cabelos avermelhados que combinavam com a expressão muito mais convidativa e divertida que ela tinha, totalmente diferente da irmã. Tinham apenas dois anos de diferença entre as duas, mas pareciam décadas, dada a diferença de humor delas.
Milena também não era tão alta quanto a irmã, o que particularmente me agradava. Aliás, ela vinha me agradando há algum tempo já, se é que me entende. Sua companhia sempre fora bem vinda. Ela sempre trazia luz para o ambiente quando me visitava. Mas isso também é assunto pra outra história.

As duas me cumprimentaram rapidamente e já começaram a fazer o relatório da situação. A voz forte de Lisandra foi a primeira a ser ouvida:
- São humanos, senhor, e parecem estar armados. Bateram nos portões por vários minutos e ignoraram os avisos dos sentinelas. Simplesmente não entendem que não podemos deixá-los entrar, ainda mais com esse comportamento marginal.
Milena emendou:
- Acham que devemos provisões e mulheres (frisou essa parte com certa revolta) a eles, senhor (um tom quase imperceptível de diversão ao me chamar assim). Dizem que vieram de longe atrás de diversão e que gastaram muito no caminho. E que vão usar bombas se não puderem entrar logo.

Bombas? Eles sabem que não vão passar das muralhas com uma bomba qualquer. Eles usaram essa ameaça comum pra assustar o general e a população da cidade.
Isso é bem comum de acontecer: gangue de uma cidade de tamanho médio vai até cidade pequena com alguns armamentos e ameaça as pessoas pra entrar. O general teme que, se eles não tiverem o que querem, vão voltar com reforço de sua cidade maior e com mais armamentos, forçando a entrada. Se eles tem bombas, devem poder conseguir coisa perigosa de onde vieram. Dessa forma, os patifes entram nas cidadezinhas, aproveitam tudo o que querem e vão embora. Às vezes essas pragas trazem de suas drogas e viciam habitantes locais. Eventualmente ainda voltam pra cidade pra vender mais drogas ou levam gente com eles, geralmente mulheres de algum pai ou marido frouxo.
Mas essa não vai funcionar aqui.

Milena pareceu ler meu pensamento:
- É o velho truque dessas gangues de cidades maiores não é?
- Sim – falei, com o semblante sério - mas não se preocupem. Não vai acontecer. Quantos eles são? Todos eles têm todos os membros? – foi inevitável meu tom de escárnio nessa parte.
Milena sorriu e Lisandra respondeu:
- Contei nove, senhor. Mas pode ter algum escondido naquela parte de carona ao lado da motocicleta.
- Moto é?
- São três motocicletas, senhor. O senhor está pensando em descer lá? – esse foi um dos poucos momentos em que as expressões das duas irmãs foram realmente parecidas: preocupação.
- É a forma mais lógica de acabar com essa palhaçada – falei de pronto.
- Mas eles estão armados... – Milena entoou protetoramente, sendo completada por sua irmã:
- E sabe-se lá que tipo de veneno eles podem estar usando em armas brancas também. Todos eles carregam alguma.
- Acalmem-se, moças. Deixem eu dar uma olhada.- e completei, me dirigindo aos sentinelas – Rapazes, quero que chamem dois sentinelas de cada flanco da muralha pra se juntar a vocês cinco. E peguem seus arcos. Ao meu sinal, quero que vocês mirem muito bem nesses bastardos.
- M-Mas senhor, – começou o pequeno rapaz que tremia ao me acordar – o senhor sabe que eles usam “coisas” de metal pra se defender das flechas... isso não vai espantá-los daqui.
- Minha intenção não é essa, garoto. Vocês só vão atirar se algum deles tentar fugir.
- Fugir? – mais uma vez a voz dele falhou e deu um tom bastante débil para a pergunta.
- Sim, fugir. De mim.
Não pude deixar de sorrir à injeção de confiança que surgiu no garoto. Ele murmurou um “ok, ok senhor” enquanto se afastava para seguir minhas ordens.
Me virei para as mulheres:
- Então, moças. Vamos ver a cara desses energúmenos.
Milena ensaiou um sorriso preocupado enquanto a irmã abria a porta da grande sala de comando para que eu entrasse.

Lá dentro, encontrei Jorth. Assim como eu, ele não era um homem muito alto. Mas tinha um porte maior, era mais largo e seu rosto de ângulos retos transmitia força. Os olhos francos me encararam seriamente como costumava fazer desde que éramos pequenos, com aquela expressão de “temos problemas”.
Ele me cumprimentou do modo aragorniano (aquele aperto de mão que não segura nas mãos, e sim nos punhos) enquanto falava:
- Daqui eu ouvi a conversa de vocês lá fora. Você realmente vai descer lá? Eles me parecem bastante violentos.
- É justamente a minha vantagem. Deixe-me confirmar. – me dirigi até a abertura da sala e olhei lá pra baixo. Era uma pequena janela com uma espécie de telescópio apontado para o grande portão abaixo.

Os nove sujeitos pareciam bastante irritados já. Todos eles usavam jaquetas de couro marrom e tinham alguma figura nas costas. Dois deles tinham moicanos punk e metal por todo o corpo, piercings. O resto tinha cabelos grandes e imundos. Todos com tatuagens que tentavam, inutilmente, disfarçar marcas de doenças pela pele.
As três motocicletas estavam desligadas e todas tinham compartimentos grandes no carrinho ao lado, provavelmente carregando drogas e pilhagem. Não, não havia ninguém escondido naqueles compartimentos.

Todos tinham correntes nas roupas, mas provavelmente não usavam como armas. Suas armas eram facões, grandes serras e, um deles, o maior, carregava um machado. Um deles, que parecia ser o líder, brandia uma arma enferrujada e antiga. Um pequeno revolver que provavelmente tinha umas três balas, se tivesse pólvora.

A voz rouca de Jorth veio de perto:
- Olha bem, outros três têm armas – pelo jeito eu estava pensando alto enquanto observava, já que ele sabia que eu olhava o líder e sua arma – mas estão no coldre, perto da perna esquerda, ó. E lá, na moto mais atrás, o carrinho ta um pouco aberto. Aquilo me parece uma bazuca. Lembra delas?
Confirmei visualmente antes de responder:
- É. Realmente. Nossa, uma basuca! Não vejo uma dessas desde a aula de armamentos do teu pai, lembra?
- Vamos nos ater ao problema, meninos? – Bradou Lisandra, mais ao fundo da sala.
- Ok. – me desculpei, tentando recompor minha voz a um tom sério. – Pois bem. Eis a situação: Esses babacas não oferecem perigo nenhum para a cidade. Dá uma olhada aqui – apontei a ferramenta, olhando para Lisandra, quer agora tinha uma imensa interrogação no lugar do rosto. – Eles carregam armas demais, e veja só, pólvora é bastante raro e caro hoje em dia. Aquelas motos velhas utilizam uma forma de combustível a partir de pólvora também, não muito diferente dos carrinhos que usamos pra transportar alguns produtos pesados aqui na cidade. Logo, acho difícil que as armas daqueles três ali funcionem. Se funcionassem, eles estariam sacudindo elas como se estivessem em alguma festa de santo antigo. Eles devem usar a maior parte da pólvora nas motos.

“Outra coisa: eles estão agressivos demais. Os dois cabeludos de trás, que são os menos bagunceiros, não param de olhar para os lados e bater os pés. Eu calculo que deve ter uns cinco dias que esses dois não tomam seus comprimidos, e os outros provavelmente menos tempo, já que estão mais agressivos. De qualquer forma, eles não estão pensando 100% direito, e isso pra mim é uma grande vantagem. Nossa cidade é cercada por montanhas então obviamente têm mineração e metais. Eles provavelmente vieram aqui atrás da drogas que os caras da mineração criaram há uns anos... deve ser a porcaria barata que eles usam. E de quebra, devem estar querendo um bocado de pólvora pras motos e todo o caos que puderem fazer aqui dentro.”

Ninguém piscava quando eu acabei de falar.
Levantei a sobrancelha esperando uma reação de alguém, até que Milena falou:
- Então você vai descer lá com os rapazes e dar uma surra neles? Só isso?
Jorth tossiu uma risada. Alguma lembrança antiga provavelmente.
Ignorei a diversão dele e respondi:
- Não, eu vou sozinho. Ah, não faz essa cara. Veja bem, eu não tenho certeza de que esses idiotas não são realmente de uma gangue grande de alguma cidade por aí, e se podem voltar a incomodar a gente se fugirem. Se eles me virem com um monte de gente, vão se sentir acuados e fugir. Não posso correr esse risco. Uma gangue grande o suficiente não vai reparar o sumiço de um grupo de aleatórios como esses, mas vai se sentir ofendida se eles voltarem lá e disserem que foram amedrontados por nós. Na verdade, seria a diversão do ano para eles.
- Bom - Jorth continuou o raciocínio – então você acha que vai descer sozinho lá e dar cabo de todos eles? Assim eles não voltam pra lugar nenhum e não incomodam mais ninguém.
- Eu deixaria você ir comigo, você bem sabe, mas não quero arriscar a vida do futuro pai do moleque que está na barriga da sua esposa em uma luta dessas. – o argumento o fez abaixar a cabeça. Eu me virei para Lisandra, que estava pronta para argumentar – e eu ir sozinho é uma vantagem tática. O líder nem vai achar que precisa usar aquela arma contra mim, e eles vão lutar de forma desleixada e desorganizada por acharem que tem vantagem. E por serem imbecis.

Ela pareceu aceitar bem meu argumento.
- Então eu vou descer e acabar logo com isso. Vocês ficam daqui. Jorth prepare os arqueiros, por favor – finalizei.

terça-feira, setembro 14, 2010

Sim / Não. Pode / Não Pode. X / !X


A dor de cabeça não era nenhuma novidade, e ela resolveu levantar do computador por um tempo. Pegou a garrafa d’água na mesa às suas costas e começou a dar grandes goles enquanto andava até a janela.

A garota vestia um short folgado de um rosa desbotado e uma blusa velha amarela, com alças finas que não permaneciam nos ombros de jeito nenhum.

Um vento fresco vinha ao seu encontro, promovendo um arrepio leve. De seu quarto, no 3º andar, podia ver a rua vazia e quieta que só a madrugada proporcionava. O cheiro leve de asfalto molhado e grama úmida trazia uma sensação boa. Gostava da noite.

Uma pontada aguda na têmpora o fez se levantar da poltrona do computador. Imediatamente ele inclinou a cabeça em ângulos estranhos, estalando o pescoço com um som alto. Fez algumas flexões no chão antes de ir até a janela grande na pequena área de serviço. Observou o céu nublado por um tempo.

O ar úmido anunciava chuva, e ele se concentrou em ouvir as gotas que começariam a cair em segundos. O silêncio da madrugada o encorajava a continuar ouvindo o nada indefinidamente, e ele permaneceu ali só ouvindo e pensando em nada muito específico. Divagando em pensamentos sem peso, sem preocupação.

O ombro da garota foi quem a avisou que começara a chover. Uma grande gota gelada tocou sua pele onde deveria haver uma alça de blusa e a tirou de seu transe. Estava totalmente perdida em pensamentos sem importância.

O frio foi repentino.

Um trovão veio junto com as primeiras gotas da chuva e fez o rapaz piscar. O frio ainda não o incomodava, mesmo ele estando em seu habitual traje de dormir, que consistia basicamente em uma calça preta fina e nada mais.

O vento gelado soprou novamente e dessa vez o fez encolher os braços em volta de si mesmo.

Ela quis ser abraçada de repente. Seu semblante tranqüilo se modificou em uma expressão de saudade de alguém que nunca teve. As sobrancelhas se juntaram devagar, e os lábios rosados formaram um bico pouco perceptível.

O maxilar se enrijeceu.

E a expressão dele ficou séria. Neste momento certamente o perguntariam o que diabos ele estava pensando e ele, como algumas vezes, simplesmente não tinha uma resposta de imediato. Apenas sentia falta de alguém que nunca teve.

O rapaz e a moça poderiam muito bem estar em prédios um de frente para o outro. Poderiam estar se encarando agora e sorrindo simpaticamente pela expressão de um ser o espelho da do outro. Poderiam conversar de longe por sinais e finalmente decidirem descer de seus apartamentos e conversarem na rua, e a conversa começaria com ambos gargalhando por “como a gente é bobo de ficar fazendo mímica ao invés de descer logo” antes mesmo de um saber o nome do outro.

Eles poderiam tranquilamente conversar até repararem que ficou incrivelmente tarde e eles têm que voltar pra casa, e ainda sentirem vontade de conversar quando chegarem lá.

Poderiam tornar costumeira a passada na janela entre qualquer atividade em casa, só pra ver se eles se vêem “por acaso”. Ou talvez de repente a tarefa de abrir o portão pra entrar no prédio tenha ficado trinta segundos mais demorada. Talvez mais demorada, se eles ficassem olhando pra trás, para o prédio em frente ao próprio.

Tudo isso é possível, mas não aconteceu.
Nenhum dos dois teve o abraço que queria. Nenhum deles foi protegido do frio.

Ele não tocou o ombro dela pra ajeitar a alça da blusa que caía pela quadragésima nona vez, após horas de conversa. Ela não comentou rindo que ele provavelmente pareceria menos mendigo de dia, enquanto tocava a barba por fazer dele e apontava sua camisa totalmente amarrotada.

Eles não ignoraram totalmente a chuva enquanto estavam juntos. Isso não aconteceu.

Os dois viveram suas vidas como puderam e nunca se encararam de suas janelas, através da chuva. Talvez tenham se visto em alguma palestra da faculdade, ou alguma festa.
Podem ter se conhecido em alguma turma de uma matéria esquisita de humanas.

Nunca tiveram mais do que isso. Sempre foram mais do que isso.

As coisas podem acontecer, podem se desenvolver, desabrochar e se tornarem acontecimentos e sentimentos sólidos.

E pode não acontecer nada, não importando o quanto se quer ou se pode. Pelo simples fato de não acontecer.

O mais perto que esses dois chegaram de se relacionar de qualquer forma, pode ter sido esse olhar para a chuva. Ou eles podem estar juntos neste momento, vivendo as próximas chuvas juntos.

No fim, é só uma história de vida ou de blog. E pode não ser a sua nem a minha.

Ou pode ser a nossa.

terça-feira, agosto 24, 2010

Magia: Nada nessa mão, nada nessa- ops.

Não houve tempo sequer de se ouvir o zunido da pequena haste pontiaguda cortando o ar. Só sentiu o impacto diretamente no peito, atravessando armadura de couro batido e roupa no caminho.

A flechada o deixou atordoado imediatamente, encarando a flecha parcialmente enterrada em seu tórax. A dor demorou a vir. O cheiro de sangue em madeira nova invadiu suas narinas enquanto ele ainda dava um passo pra trás, tentando manter o equilíbrio e o raciocínio.

Estava bebendo água no rio, de costas para um caminho que levava à floresta densa, mas parcialmente protegido por uma concentração de arbustos atrás de si. Lembrou de ter levantado, e virado de frente para o caminho, costas para o rio. Deu dois passos ao encarar algo que parecia ser o brilho de dois olhos e uma grande energia ruim entre a mata escura. Lembrou de sentir o desejo de morte vindo, e a flecha chegou ao seu destino.

Diretamente à frente, foi o que pensou. Parou para ouvir. Os passos leves do atirador não podiam ser ouvidos a essa distância, o que significava que ele era bom, pois atirara longe. O arqueiro teve que calcular a curva pelo vento, evitar o máximo de folhas e galhos das árvores no caminho. Além disso, deveria ser um homem bastante paciente, pois esperara até que o alvo estivesse em posição perfeita para o tiro, coisa que este alvo em especial não havia oferecido nos últimos dias.

Ferido, ele gritou de dor e deixou as pernas perderem seu equilíbrio, caindo para trás, fazendo uma bagunça entre os arbustos e as poças d’água próximas.

O arqueiro estava escondido em uma parte mais densa e escura da floresta, aguardando a chance certa. Mesmo na luz, seu capuz grande tampava todo o rosto, tornando impossível encarar o olhar fixo e implacável que se estampava naquele rosto no momento da caça.

Sobre um dos joelhos, com total equilíbrio e controle de cada músculo de seu corpo, viu a oportunidade (a primeira em dias) e atirou. Mirou um pouco para cima, calculando obstáculos e vento no caminho, e a flecha voou do arco absurdamente envergado.

Ouviu com alegria o grito agonizante que indicava o tiro certeiro. Empertigou-se imediatamente, como que fazendo uma pose vitoriosa para um observador inexistente. Sentia muito orgulho de si. Havia deixado o alvo confortável, achando que tudo estava bem. Por dias havia-o seguido e sabia bem que mesmo os mais espertos e experientes se acostumavam à sensação de estarem sendo vigiados se submetidos a ela durante muito tempo. E aí estava o resultado: mais um serviço bem feito. Bom, quase feito. Ainda eufórico, começou a andar, no intuito de terminar o serviço.

Carregava uma aljava com algumas flechas colada à perna direita, amarrada ali com tiras de couro, equipamento especialmente feito pra ele. Na outra perna, um pequeno bolso, também amarrado por tiras, onde ele deixava pequenas sacolas de couro com venenos e óleo para passar em flechas e atirá-las com fogo. Pôs a mão protetoramente sobre esse bolso e começou a correr para o alvo.

Correu em um caminho de parábola, não encarando diretamente o corpo do inimigo caído. Sempre fora cuidadoso assim mesmo com o alvo abatido. Chegar pelo flanco salvara sua vida várias vezes. Parou a poucos metros do alvo, separado do corpo por um arbusto denso, lembrou da recomendação de certo rei que o havia contratado: “Cuidado, magos são criaturas traiçoeiras. Usam tudo ao redor!”. Com o arco já pendurado em seu ombro, ele sacou sua adaga curta e curva, excelente para ataques rápidos ou para arremessar. Era excelente com essa arma. O mago estava muito debilitado e devia estar sem muita força vital, o que limitaria muito o poder de qualquer espécie de feitiço que usasse. Pensando nisso, se sentiu mais confiante e avançou para dar a volta no arbusto e transformar o corpo caído em um defunto.

No milésimo de segundo em que colocou os olhos no corpo cuja flecha estava atravessada no tórax, a adrenalina do campo de batalha tomou conta dos corpos de ambos, despertando os instintos guerreiros de cada um e levando-os a, nesse tempo mínimo, conseguirem total conhecimento do ambiente onde batalhariam.

À frente do arqueiro, um mato baixo e úmido. Três passos a frente estava o corpo do mago, com seu braço direito caído pra dentro dos arbustos e a cabeça encarando o topo das árvores altas, olhar vazio vidrado nos pequenos pontos por onde as copas das árvores permitiam a passagem da luz. Ele estava deitado e sua respiração, subindo e descendo no peito, era muito lenta, quase imperceptível.

O arbusto denso se estendia até o seu lado direito também, e assim ele observava sua caça caída com a cabeça diretamente à sua frente.

E então uma faísca na mão esquerda do mago, enquanto ele estalava os dedos. Não, a faísca estava nele, em sua perna esquerda! Pior, no bolso onde estava seu equipamento inflamável!

Ele xingou alto e atirou a adaga na mão esquerda do mago, a que produzia o fogo, enquanto pulava para trás, para o rio. Droga! Maldito! Acabara de queimar seus tão raros óleos e o fogo estava se espalhando pelo couro de sua armadura leve, já tendo atingido seu cinto de adagas. Ausente ao grito de dor do arcano atingido na mão, o arqueiro se desfez rapidamente do peitoral de couro e mergulhou no rio raso, levantando rapidamente e batendo com as mãos na perna esquerda ainda quente.

Encharcado, levantou a cabeça já sem capuz para encarar o mago de forma desafiadora.

- Respeito você pelo último esforço, arcano. Mas você está fraco e agora sua mão esquerda já não serve pra nada. É o fim, você perdeu.

Sua resposta foi uma tosse que lembrava de longe uma mínima risada.

Deu um passo para frente. Mais dois passos e sairia do rio, mais três passos e terminaria com aquela caça e seria um homem rico.

- Seus passos fazem um tremendo barulho quando dentro de um rio, mercenário – Disse a voz incrivelmente jovem do mago, com tom de quem se divertia.

E então não houve tempo para mais nada. Uma bola de luz se moveu rápido de dentro dos arbustos, acompanhando a mão direita do mago, e de lá veio um clarão. Ouviu um trovão ensurdecedor enquanto a luz atirava-se como uma lança de eletricidade diretamente para seu corpo encharcado. A luz foi sua última visão antes que o mundo se tornasse escuro.

O mago nem sequer precisou olhar para atingir seu alvo, muito menos para conferir se este estava vivo ainda, pois obviamente não estaria. Estava completamente molhado, e pelo som que fez ao andar, o rio devia estar meio palmo abaixo de seu joelho. Só precisou atirar o raio que havia conjurado sob a distração do fogo e a cobertura dos arbustos, na direção que ouvia. A água em volta fazendo o resto do serviço.

Por alguns segundos ouvia o corpo do assassino tremendo freneticamente antes de finalmente bater na água rasa. Suas últimas palavras haviam sido o som de seu maxilar batendo com força enquanto a corrente elétrica atravessava o corpo.

Cuspiu sangue e finalmente se entregou à dor da flecha enterrada no peito e da mão atravessada pela adaga, provavelmente envenenada. Cairia, mas seu inimigo iria junto com ele para o fim. Calculou que o fim para si não levaria mais do que alguns instantes.

Não repensou sua vida. Não se arrependeu de nada do que fez. Não houve túnel nem luz enquanto cerrava os olhos. Enquanto fechava seus olhos para este mundo, ouviu o barulho de cascos batendo com força e ritmo veloz, tremendo o chão sob si mesmo. Seria o cavaleiro da morte de quem ouvira falar?

Tudo escureceu e não houve mais como pensar ou saber nada.

Os cascos pararam ao seu lado. E não houve mais nada.