quinta-feira, dezembro 24, 2009

Awaken

Acordou com as costas empapadas de suor. Grudado nos lençóis da cama que imediatamente rangeu e se moveu um pouco pro lado.

Olhou pro lado vazio da cama, mas não achou ninguém. Só um sonho.

Levantou cambaleante. A dor na cabeça como ponta de lança ao lado da testa, subindo uma veia ali. Esfregou os olhos com a mão machucada e sentiu uma dor aguda, que o fez imediatamente desistir e imediatamente sentir coceira no olho.

Os pés frios encostaram no chão gelado e se assustaram como se estivessem quentes. E na verdade estavam, mas a experiência com sua vida sempre o fez acreditar que seus pés eram frios. Deixou a temperatura baixa do chão subir pelos pés e provocar uma puxada estranha no estomago. Começou a andar, como sempre, no escuro. Não gostava de acender as luzes. Conhecia o caminho muito bem.
Ao dar o segundo passo, esbarrou o ombro no canto de madeira da porta. Xingou baixo e continuou andando sem sequer apalpar em volta, em busca de mais armadilhas. Ainda andava decidido quando bateu o osso logo abaixo e a direita do umbigo na quina da mesa de vidro. Dessa vez xingou alto. Esfregou o machucado, que já sarava rápido. Só mais um pra coleção.

Começou a andar mais rápido, como se isso fosse sensato. Desviou por pouco da quina de um móvel no caminho, mas não deixou de ralar parte do dedão em uma falha que havia no piso. Desistiu de praguejar, apenas sentiu a dor, calado. Respirou fundo e olhou pra geladeira. Sua visão já se acostumando com a nova situação. Decidiu que um pouco de água gelada melhoraria as coisas.

Chegou à geladeira sem problemas. Abriu-a, e foi recebido de braços abertos. Várias coisas novas ali pra se explorar. Pegou uma garrafa rapidamente, tomando cuidado pra não derrubar, arrancou a tampa com facilidade e tentou beber. A água gelada passou pela garganta como um iceberg, como se não quisesse ser bebida dessa forma. A dor não deixou que ele sequer engolisse. Decidiu que iria ao banheiro antes, lavaria o rosto, adquirindo alguma dignidade. Depois voltaria à geladeira, com calma, e devagar, beberia a água. Imaginou até que sabor tinha. Pareceu até ter cheiro, e era bom.

Guardou a garrafa com cuidado, fechou a geladeira e percebeu que teria que se acostumar com a escuridão novamente. “A vida é curta”, pensou, e saiu andando rápido sem ver um palmo à frente.

Sentiu a cadeira do computador se aproximando e desviou com destreza, enquanto protegia o osso abaixo do umbigo do lado esquerdo, de um impacto com outra quina da mesa. Se sentiu vitorioso por um momento, mas percebeu que era nada mais do que não repetir um erro idiota.

Teve a decência de apalpar o espaço à sua frente procurando a porta do banheiro. Achou-a, tocando na parte onde tinham farpas, bem no canto. Não se machucou ali, incrivelmente, e abriu a porta com calma. Acendeu a luz, dando de cara com uma expressão débil de quem não fechou o olho suficiente mesmo sabendo que a luz viria diretamente pra ele.

Apoiou as mãos na pia, e chegou mais perto do espelho, olhando-se nos olhos castanhos como se quisesse que eles lhe dissessem algo.

Pelo reflexo de seus olhos, olhou para o buraco dentro de si mesmo. Lá, pendurados, estavam praias, bares, shoppings, cinemas, ruas e casas. Pareciam trapos pendurados em uma janela muito grande, e onde venta forte. Situações passageiras, mas faziam parte da vida que ainda havia ali. E, com sorte, talvez algumas passassem a tomar um lugar ali, mais pra dentro daquela janela.

Lavou o rosto pensativo e saiu do banheiro sem enxugá-lo. Dessa vez tomou cuidado pra não esbarrar em nada.

Subitamente, pensou em todo seu caminho. Enquanto voltava à geladeira em busca de água, pensou no trajeto de sua cama até o banheiro, e tudo o que aconteceu.

Viu o sol nascendo pela janela, uma bola de luz entre os prédios que impedem a visão do horizonte. Da janela aberta veio uma brisa de verão e acariciou seu rosto, passando pela rala barba que estava por fazer.

Riu da analogia de tudo isso com a vida.

Fez uma metáfora, sentou no computador e escreveu.

terça-feira, maio 26, 2009

Dreams .1

Ok, eu não cumpri minha promessa. Mas essa é a vantagem de se prometer algo a si mesmo: Ninguém vai reclamar.

Pra compensar, segue um pequeno e charmoso texto que escrevi sobre um sonho que tive muitos anos atrás, depois de passar um bom tempo sem sonhos bons.


Dreams

08/12/08

A poeira subia pelo deserto enquanto algo se movia, fazendo o chão tremer em protesto. Cada segundo era uma mancha borrada na areia da grande ampulheta sob o sol.

Era a liberdade, finalmente. Correndo. Atravessando o deserto depois de muito tempo parada. Travada nos músculos rígidos de sonhos anteriores. Sem conseguir
se mexer sequer pra fugir e sempre tentando fugir de algo. O sub-consciente tentando encontrar a saída mais fácil, desesperado.

Depois de várias noites sem conseguir lutar, sem se mover, finalmente ele era livre. Cada parte do seu corpo o obedecia com fanática precisão. Seus reflexos
não deixavam escapar nada. Por mais rápido que viesse, ele podia se desviar. Todos os sentidos aguçados, como um caçador natural.

Ao contrário das noites anteriores, onde tudo era cinza e granulado, poeira que subia não incomodava seus olhos. Boa parte dela ficava para trás ou apenas
dava lugar às marcas de pés que conduziam para ele, se alguém fosse veloz o suficiente para segui-lo. O velho e viciante vento passava quente pelas orelhas, mas não importava.

De repente, ele parou.

Havia chegado onde queria. No bar.
Não era um bar comum, desses de cidades grandes: cinza e chafurdadas em concreto e fumaça. Não. Era um bar areiento e fedido. Abafado, é claro. Imundo, melado com o suor daqueles que representavam os piores sentimentos acumulados durante o tempo em que ele esteve preso, enjaulado nas próprias escolhas.
Cada maldito homem que preenchia o espaço dentro do bar era uma frustração, uma insegurança, uma raiva, uma desconfiança. Os mais fracos eram apenas brigas a serem encaradas por nada. Problemas criados atoa. Tudo o que ele havia enfrentado sem revidar, apenas aguentando o peso dos próprios membros a não se mover.

Mas hoje não.

Sua roupa da cor de deserto fazia-se confundir com toda a areia que subiu quando ele parou. As botas baixas fizeram um ruído aborrachado por baixo de seus pés. Ele agradeceu a generosidade da ventania que passava tangenciando-o, revelando a parte de baixo do seu rosto ao tirar dali um trapo que ele trazia pendurado sob o pescoço. Ele Olhou fixamente para a porta dupla que balançava levemente, como se esperando que ela se abrisse sob sua simples vontade.
Decidiu parar. Ele se sentia capaz, mas não teria tanta graça se fosse dessa forma.

Por um segundo ele ponderou sobre a possibilidade de entrar no estabelecimento com calma, esperar a reação do inimigo. Talvez até aceitar um ataque e fazer cara de "viu-como-você-realmente-não-pode-me-machucar?".
Um sorriso psicopático invadiu seu rosto, e ele decidiu que não. Não faria assim. Nada de calma. Sem clichê. O dia era de redenção, sem mais poses.
Os caninos pontudos sorriram e arranharam o lábio, fazendo-o perceber o quão louco ele parecia, mas estava feliz. Podia sorrir ao que quisesse.

Como de costume, ele arqueou as costas e dobrou os joelhos. No segundo seguinte, sua visão periférica passava de um quadro pintado em areia e sol para um velho bar western, captando entre os dois ambientes somente o movimento das portas duplas batendo na parede interna enquanto ele entrava.

Parecia muito maior por dentro, e muito mais lotado do que ele jamais imaginou.

Ninguém parecia pensar antes de se levantar de suas mesas quando viram um trovão entrar quase arrancando as portas de madeira velha. Em dois segundos, estavam todos de pé, tomando mais um segundo para que o invasor fosse mais para o meio das mesas, ficando estrategicamente mais difícil de ele se defender. Nada esperto, esse garoto. Era o que pensavam enquanto coçavam a barba e apagavam os cigarros.

Sua esquiva foi perfeita quando lhe atiraram uma, duas, quatro cadeiras. Elas se acumulavam ao seu redor, reduzindo seu espaço para se movimentar. Ele não pareceu se importar e partiu para atacar o homem mais próximo.

Um de seus pés levantou poeira enquanto acertava um cara e o arremessava na mesa de trás. Seu companheiro ainda segurava um baralho quando um segundo chute atravessou seu rosto. Viu tudo rodando antes de não ver mais nada.

Uma barulheira invadiu o lugar, confundido sons de madeira quebrando, gemidos abafados e gritos. Todos gritavam. Alguns xingavam enquanto tentavam se aproximar, outros para se afastar. O garoto gritava de raiva, com força. Gritava a plenos pulmões. Sentia prazer ao ver que alguns dos gritos realmente assustavam aqueles que um dia foram seus medos. Gritava mais, enquanto lutava com insanidade, reflexo e espírito.

Cada golpe desviado era uma vitória e um contragolpe dado. Pulava, girava no ar. Desviava por baixo de mesas, chutava cadeiras nos inimigos. As garrafas de cima do balcão viraram projéteis atirados a esmo, afastando uns e acertando outros.

Ele subiu no balcão com um pulo, chutando um rosto no caminho. Defendeu duas cadeiras e chutou um prato cheio de moscas no cara que tentava subir numa mesa próxima. Pulou para o piano, esbarrando o pé nas teclas e soltando uma nota grave no ar. Seu eco emudeceu os barbudos imundos que estavam perto, mas logo o silencio foi quebrado pelo grito de dor de um deles que, ao tentar alcançar o pé do garoto, teve sua mão presa pelo fecho que protege as teclas do piano.

Com um salto de pés encolhidos, ele se maravilhou ao pendurar-se em um lustre que só agüentou preso no teto por tempo suficiente para que ele se projetasse para cima de outra mesa. O lustre velho e cheio de cupins se quebrou em cima de mais alguns adversários.
A luta levou horas, mas ele não se cansava. Não parou pra tomar ar nem tentou fugir.
Lutou com todos. Desviou, conteve golpes e até foi acertado algumas vezes. Manteve o combate por toda a tarde, notando o brilho do crepúsculo no horizonte quando o penúltimo bandido caiu sobre uma rasteira. Seus movimentos ainda estavam perfeitos. Nenhum músculo parecia falhar. Ele só sentia dor, agora que tinha parado. Mas era uma dor boa. Uma dor muscular, daquela que o faria ficar horas a mais na cama na manhã seguinte. Mas sua alma estava limpa. E essa sim, que havia doído por meses e meses, não machucava mais.

O vento veio forte da janela e derrubou os restos da única mesa que ainda parecia agüentar em pé naquele ambiente, chamando atenção para o chão.

Ele olhou para o chão e viu incontáveis deles. Desmaiados ou mortos, não sabia. Não importava, não eram pessoas. Eram mágoas. Cadeados, correntes, pesos. Seu olhar voou para o lado oposto e ele flexionou os joelhos um pouco ao ver o último se aproximando, correndo.
O vilão gritava como um louco, mas sua voz parecia quase não sair. Estava com a cara inchada, os olhos lacrimejantes e vermelhos. Na sua voz ouviam-se xingamentos horríveis e gritos de convencimento. Tentativas de fazê-lo parar. Ele socava tudo no caminho ignorando o sangue nos seus punhos. O garoto reconheceu este último, e como poderia não reconhecer: era o Desespero.


Ainda com os joelhos flexionados, ele se adiantou ao golpe desesperado, dando meio passo para frente. Teve tempo de agarrar pela manga um dos braços do adversário, antes que esse percebesse o que estava acontecendo. A outra mão fez com que o inimigo fechasse os olhos, esperando um soco, mas com um rastro na poeira que subia, a mão agarrou parte de sua blusa na abertura no peito. O ombro do garoto encostava pouco abaixo do peito do desespero. Seu quadril se moveu poucos graus e o inimigo foi arremessado no ar, passando velozmente por cima de seu ombro e se estatelando com um som de madeira rachando e uma poeira alta tomando conta do lugar.

Esse tinha sido o último deles.

Com olhos de homem, o rapaz deixou escapar um riso quando a poeira baixou e todos os corpos tinham sumido. Tudo desapareceu. Tinha acabado, finalmente.
Todo o troco que ele precisava dar, estava dado. O troco em si mesmo, símbolo da sua liberdade.

Nada daquilo jamais o incomodaria novamente. Agora estava certo. Poderia correr o quanto quisesse, seu corpo não seria mais preso por sua mente. Suas escolhas fariam, agora, o melhor pra ele. Sem mais lutas contra si mesmo.

Ele saiu correndo pela porta oposta do aposento. Levantou a poeira no deserto novamente, e seguiu o caminho que quis.

sexta-feira, abril 24, 2009

Press Start Button

Olha, eu realmente nunca gostei de blogs.

Não me entenda mal, não tenho nada contra blogs dos outros, cada um faz o que quer: uns mostram suas vidas, outros mostram a vida alheia, dão informação, outros humor, etc, etc, etc. Eu só nunca tive a vontade para fazer um, pelo simples fato de não me encaixar em nenhum perfil de blogs que eu conheça.

Funciona assim: eu, até então, escrevo pra mim (com exceção deste primeiro post). Gosto do ato em si (durante a escrita) e gosto de ler o que escrevi, tempos depois, pra ver o reflexo das minhas próprias idéias e minha linha de raciocínio na época e reparar se eu evoluí algo na minha maneira de escrever desde então.

Não confunda! Isso não quer dizer que eu não goste que os outros leiam. Só não tenho essa necessidade na minha pobre alma.

Aí, quando você se (me) pergunta "por que diabos esse blog?" eu respondo que "fiz como forma de compromisso pra mim mesmo". Pois é, vai ficando cada vez pior essa explicação toda.

A partir de agora, eu estou me comprometendo a escrever algum texto (crônicas, divagações, lixo..não, eu não pretendo assumir um padrão para os tipos de texto postados aqui) e postar pelo menos uma vez por semana, visando somente praticar mais minha escrita e melhorar nela pra, quem sabe em breve, escrever um (++) livro.

Tudo mais que eu conseguir, como resultado de vossa leitura, é lucro. Se alguém gostar do que eu escrevo, ou xingar, rir, chorar, achar que perdeu tempo, mudar seu dia ou ter qualquer outra reação bizarra que possa existir, é um grande, grande, imenso ganho de experiência.

Até que eu escreva livros, não vou me comprometer totalmente com ortografia, norma padrão, assuntos específicos ou vossa interpretação.

Ah, é claro, eu agradeço. Você se importou em ler até aqui.

Comecei lucrando.