quinta-feira, setembro 30, 2010

Muralha - Cap. I


- Senhor! Senhor! – Foram as primeiras palavras que ouvi antes de terminar de acordar naquela madrugada fria.
- Diga homem! – bradei, sem humor algum. – Pára de gritar no meu ouvido, maldito!

O rapaz devia ter apenas uns dezessete anos de idade. A voz dele ainda falhava, chegava a ser um tanto ridículo. O coitado realmente nunca devia ter visto nada como aquilo em toda a sua pequena vida. Esse tipo de confusão só era vista pelos protetores da cidade, enquanto os habitantes normais se limitavam a ficar sabendo as notícias.

Não que ter esse tipo de visita ao nosso forte fosse incomum. Nossas muralhas com iluminação (rara neste mundo atualmente) espalhada por toda sua extensão e a mais de 20 metros de altura chamava atenção de grupos de viajantes com pouco rumo (o que era bem mais comum do que energia elétrica), gangues e/ou mercadores. Gangues e mercadores eu particularmente considerava a mesma porcaria: todos tentavam te roubar de uma forma ou de outra.

Voltando ao garoto, ele tremia tanto quanto sua voz adolescente enquanto falava:
- Senhor, aqueles homens estão com pressa e parecem perigosos! Por favor, senhor!
- Meu rapaz, – eu comecei, calmamente dessa vez. Talvez se alguém nessa maldita sala estivesse calmo o moleque conseguisse voltar a ter culhões – você está com frio? – esperei sua negativa com a cabeça antes de continuar – então pelo amor dos deuses, faça suas pernas pararem de fazer barulho enquanto tremem, pelo menos.

Ele me olhou com uma expressão engraçada que lembrava meu cachorro antigo, o Jack.
Mas o Jack teria cuspido naqueles mequetrefes além da muralha se pudesse cuspir e se não tivesse morrido há anos.

- Agora sim, moleque. Me diz quantos são lá embaixo? – continuei, quase rindo à lembrança do velho Jack.
- N-Não contei, senhor.
- Então pra que aquelas porras de aulas todas que você teve durante a sua vida, garoto?! – me fiz de irritado – Devia ter ido pra maldita aula de crochê com aquela sua irmã! Haha! – Ok, não agüentei não rir dessa vez.

Levantei da minha cama sem pressa. Afinal, era uma das poucas camas de colchões com algum conforto hoje em dia. Privilégios de ser “general” de uma das cidadelas que ainda persistem na sobrevivência humana.

General? Sim. Mas militar não. O título, nesses tempos depois de o mundo ter “seguido adiante” (depois do fim da maioria da população humana deste planeta) não é mais de cunho somente militar.
O fato é que as primeiras cidadelas eram militares, sim. Fortes que cercavam grandes cidades e eram controlados por homens treinados no combate militar e estratégia avançada. Eram generais de verdade.
Com o tempo as pequenas cidades também formaram suas cidadelas, suas fortalezas, como puderam. O título dado aos que comandavam as ações de defesa na fortaleza acabou sendo general também, mesmo nessas cidades pequenas com pouca instrução militar.

É claro que as grandes cidades foram as primeiras a serem atacadas. Alvos imensos e óbvios, com suas grandes luzes, seu cheiro de comida abundante e o resto de diversão que ainda se podia ter neste mundo devastado. A busca dos henki pela energia humana levou seus maiores clãs a atacarem as grandes cidades logo que eles apareceram neste mundo, e sabe-se lá de onde vieram (Não que isso importe alguma coisa agora que não existe mais nada a ser feito. Mas isso é uma historia pra depois). Logo, essas grandes cidades foram desaparecendo do mapa, restando apenas a cidade-forte que foi construída depois do início da guerra. Da guerra contra os henkis, estou falando, e não da guerra entre os humanos. Nossa, como estou me alongando nessa explicação.

Resumidamente, o título de general que era originalmente militar, foi “vulgarizado” e espalhado a todo chefe de cidadela que existe, e a maioria dos que existe atualmente de militar só tem o armamento (também bastante raro. A maioria da pólvora que se consegue é utilizada em uma forma rudimentar de produção de energia, em combustão e coisas que não saberia explicar perfeitamente). A organização militar já não existe mais há algum tempo. Deuses sabem, organização quase nenhuma existe.

Mas voltando ao que interessa, eu levantei de minha cama confortável. Com calma, vesti o casaco grande, que ia quase até o chão, e as luvas de couro. Já estava com a calça grossa e as botas, pois sempre dormia preparado para me levantar rapidamente. Raras vezes precisava realmente fazer isso, mas é sempre bom estar preparado. Às costas, vinha a grande e afiada espada. Era fina, como aquela dos antigos japoneses, e mais longa que o braço de um nadador.

O garoto pareceu se acalmar ao som de minha espada na bainha nas minhas costas. Coloquei as mãos nos ombros dele:
- Se quiser ter uma espada dessas um dia, filho, vai ter que fazer essas varetas pararem de tremer, ok? Pernas são a base de um bom lutador. Hahaha!
Todos na sala riram nervosamente e o clima no quarto pareceu ficar mais leve de repente. Só então eu parei pra olhar o resto das pessoas no recinto, além do garoto desesperado. Eram mais quatro dos sentinelas das muralhas, responsáveis por observar quem chegava perto da cidadela ao longe.

O caminho até a muralha frontal era longo, então demoramos uns quinze minutos de caminhada. As botas fazendo barulho no chão metálico, atraindo alguns olhares que logo paravam no meu rosto e provocavam um pequeno aceno de mão ou cabeça.
Eram trabalhadores das mais diversas áreas ali, trabalhando durante a madrugada. Se esforçando para manter a cidade funcionando bem para o bem de todos. A pequena porção da humanidade que eu realmente considero “humanidade”. Essas pessoas confiam em mim, na minha liderança, para proteger essa cidade e me respeitam por quem sou. Não fazem idéia do quanto eu as respeito e fico honrado em ajudar a protegê-las. Não fossem essas pessoas, eu não teria crédito algum no ser humano e talvez estivesse aí pelo mundo invadindo pequenos covis de henkis ou lutando contra gangues de humanos desgraçados, tentando fazer minha vida ter algum significado. Provavelmente estaria morto muito antes de chegar aos trinta sem ter encontrado sequer um coração bom nesse mundo.

Ao chegar na parte frontal da muralha, em frente à sala que dá visão exatamente acima dos portões, encontrei Lisandra. Uma guerreira exemplar, devo dizer. Era morena de sol e alta, de rosto sério a despeito do formato delicado. Diferente dos olhos verdes, o cabelo negro e até a cintura era totalmente diferente do de sua irmã mais nova, Milena, que tinha os cabelos lisos até os ombros. Eram cabelos avermelhados que combinavam com a expressão muito mais convidativa e divertida que ela tinha, totalmente diferente da irmã. Tinham apenas dois anos de diferença entre as duas, mas pareciam décadas, dada a diferença de humor delas.
Milena também não era tão alta quanto a irmã, o que particularmente me agradava. Aliás, ela vinha me agradando há algum tempo já, se é que me entende. Sua companhia sempre fora bem vinda. Ela sempre trazia luz para o ambiente quando me visitava. Mas isso também é assunto pra outra história.

As duas me cumprimentaram rapidamente e já começaram a fazer o relatório da situação. A voz forte de Lisandra foi a primeira a ser ouvida:
- São humanos, senhor, e parecem estar armados. Bateram nos portões por vários minutos e ignoraram os avisos dos sentinelas. Simplesmente não entendem que não podemos deixá-los entrar, ainda mais com esse comportamento marginal.
Milena emendou:
- Acham que devemos provisões e mulheres (frisou essa parte com certa revolta) a eles, senhor (um tom quase imperceptível de diversão ao me chamar assim). Dizem que vieram de longe atrás de diversão e que gastaram muito no caminho. E que vão usar bombas se não puderem entrar logo.

Bombas? Eles sabem que não vão passar das muralhas com uma bomba qualquer. Eles usaram essa ameaça comum pra assustar o general e a população da cidade.
Isso é bem comum de acontecer: gangue de uma cidade de tamanho médio vai até cidade pequena com alguns armamentos e ameaça as pessoas pra entrar. O general teme que, se eles não tiverem o que querem, vão voltar com reforço de sua cidade maior e com mais armamentos, forçando a entrada. Se eles tem bombas, devem poder conseguir coisa perigosa de onde vieram. Dessa forma, os patifes entram nas cidadezinhas, aproveitam tudo o que querem e vão embora. Às vezes essas pragas trazem de suas drogas e viciam habitantes locais. Eventualmente ainda voltam pra cidade pra vender mais drogas ou levam gente com eles, geralmente mulheres de algum pai ou marido frouxo.
Mas essa não vai funcionar aqui.

Milena pareceu ler meu pensamento:
- É o velho truque dessas gangues de cidades maiores não é?
- Sim – falei, com o semblante sério - mas não se preocupem. Não vai acontecer. Quantos eles são? Todos eles têm todos os membros? – foi inevitável meu tom de escárnio nessa parte.
Milena sorriu e Lisandra respondeu:
- Contei nove, senhor. Mas pode ter algum escondido naquela parte de carona ao lado da motocicleta.
- Moto é?
- São três motocicletas, senhor. O senhor está pensando em descer lá? – esse foi um dos poucos momentos em que as expressões das duas irmãs foram realmente parecidas: preocupação.
- É a forma mais lógica de acabar com essa palhaçada – falei de pronto.
- Mas eles estão armados... – Milena entoou protetoramente, sendo completada por sua irmã:
- E sabe-se lá que tipo de veneno eles podem estar usando em armas brancas também. Todos eles carregam alguma.
- Acalmem-se, moças. Deixem eu dar uma olhada.- e completei, me dirigindo aos sentinelas – Rapazes, quero que chamem dois sentinelas de cada flanco da muralha pra se juntar a vocês cinco. E peguem seus arcos. Ao meu sinal, quero que vocês mirem muito bem nesses bastardos.
- M-Mas senhor, – começou o pequeno rapaz que tremia ao me acordar – o senhor sabe que eles usam “coisas” de metal pra se defender das flechas... isso não vai espantá-los daqui.
- Minha intenção não é essa, garoto. Vocês só vão atirar se algum deles tentar fugir.
- Fugir? – mais uma vez a voz dele falhou e deu um tom bastante débil para a pergunta.
- Sim, fugir. De mim.
Não pude deixar de sorrir à injeção de confiança que surgiu no garoto. Ele murmurou um “ok, ok senhor” enquanto se afastava para seguir minhas ordens.
Me virei para as mulheres:
- Então, moças. Vamos ver a cara desses energúmenos.
Milena ensaiou um sorriso preocupado enquanto a irmã abria a porta da grande sala de comando para que eu entrasse.

Lá dentro, encontrei Jorth. Assim como eu, ele não era um homem muito alto. Mas tinha um porte maior, era mais largo e seu rosto de ângulos retos transmitia força. Os olhos francos me encararam seriamente como costumava fazer desde que éramos pequenos, com aquela expressão de “temos problemas”.
Ele me cumprimentou do modo aragorniano (aquele aperto de mão que não segura nas mãos, e sim nos punhos) enquanto falava:
- Daqui eu ouvi a conversa de vocês lá fora. Você realmente vai descer lá? Eles me parecem bastante violentos.
- É justamente a minha vantagem. Deixe-me confirmar. – me dirigi até a abertura da sala e olhei lá pra baixo. Era uma pequena janela com uma espécie de telescópio apontado para o grande portão abaixo.

Os nove sujeitos pareciam bastante irritados já. Todos eles usavam jaquetas de couro marrom e tinham alguma figura nas costas. Dois deles tinham moicanos punk e metal por todo o corpo, piercings. O resto tinha cabelos grandes e imundos. Todos com tatuagens que tentavam, inutilmente, disfarçar marcas de doenças pela pele.
As três motocicletas estavam desligadas e todas tinham compartimentos grandes no carrinho ao lado, provavelmente carregando drogas e pilhagem. Não, não havia ninguém escondido naqueles compartimentos.

Todos tinham correntes nas roupas, mas provavelmente não usavam como armas. Suas armas eram facões, grandes serras e, um deles, o maior, carregava um machado. Um deles, que parecia ser o líder, brandia uma arma enferrujada e antiga. Um pequeno revolver que provavelmente tinha umas três balas, se tivesse pólvora.

A voz rouca de Jorth veio de perto:
- Olha bem, outros três têm armas – pelo jeito eu estava pensando alto enquanto observava, já que ele sabia que eu olhava o líder e sua arma – mas estão no coldre, perto da perna esquerda, ó. E lá, na moto mais atrás, o carrinho ta um pouco aberto. Aquilo me parece uma bazuca. Lembra delas?
Confirmei visualmente antes de responder:
- É. Realmente. Nossa, uma basuca! Não vejo uma dessas desde a aula de armamentos do teu pai, lembra?
- Vamos nos ater ao problema, meninos? – Bradou Lisandra, mais ao fundo da sala.
- Ok. – me desculpei, tentando recompor minha voz a um tom sério. – Pois bem. Eis a situação: Esses babacas não oferecem perigo nenhum para a cidade. Dá uma olhada aqui – apontei a ferramenta, olhando para Lisandra, quer agora tinha uma imensa interrogação no lugar do rosto. – Eles carregam armas demais, e veja só, pólvora é bastante raro e caro hoje em dia. Aquelas motos velhas utilizam uma forma de combustível a partir de pólvora também, não muito diferente dos carrinhos que usamos pra transportar alguns produtos pesados aqui na cidade. Logo, acho difícil que as armas daqueles três ali funcionem. Se funcionassem, eles estariam sacudindo elas como se estivessem em alguma festa de santo antigo. Eles devem usar a maior parte da pólvora nas motos.

“Outra coisa: eles estão agressivos demais. Os dois cabeludos de trás, que são os menos bagunceiros, não param de olhar para os lados e bater os pés. Eu calculo que deve ter uns cinco dias que esses dois não tomam seus comprimidos, e os outros provavelmente menos tempo, já que estão mais agressivos. De qualquer forma, eles não estão pensando 100% direito, e isso pra mim é uma grande vantagem. Nossa cidade é cercada por montanhas então obviamente têm mineração e metais. Eles provavelmente vieram aqui atrás da drogas que os caras da mineração criaram há uns anos... deve ser a porcaria barata que eles usam. E de quebra, devem estar querendo um bocado de pólvora pras motos e todo o caos que puderem fazer aqui dentro.”

Ninguém piscava quando eu acabei de falar.
Levantei a sobrancelha esperando uma reação de alguém, até que Milena falou:
- Então você vai descer lá com os rapazes e dar uma surra neles? Só isso?
Jorth tossiu uma risada. Alguma lembrança antiga provavelmente.
Ignorei a diversão dele e respondi:
- Não, eu vou sozinho. Ah, não faz essa cara. Veja bem, eu não tenho certeza de que esses idiotas não são realmente de uma gangue grande de alguma cidade por aí, e se podem voltar a incomodar a gente se fugirem. Se eles me virem com um monte de gente, vão se sentir acuados e fugir. Não posso correr esse risco. Uma gangue grande o suficiente não vai reparar o sumiço de um grupo de aleatórios como esses, mas vai se sentir ofendida se eles voltarem lá e disserem que foram amedrontados por nós. Na verdade, seria a diversão do ano para eles.
- Bom - Jorth continuou o raciocínio – então você acha que vai descer sozinho lá e dar cabo de todos eles? Assim eles não voltam pra lugar nenhum e não incomodam mais ninguém.
- Eu deixaria você ir comigo, você bem sabe, mas não quero arriscar a vida do futuro pai do moleque que está na barriga da sua esposa em uma luta dessas. – o argumento o fez abaixar a cabeça. Eu me virei para Lisandra, que estava pronta para argumentar – e eu ir sozinho é uma vantagem tática. O líder nem vai achar que precisa usar aquela arma contra mim, e eles vão lutar de forma desleixada e desorganizada por acharem que tem vantagem. E por serem imbecis.

Ela pareceu aceitar bem meu argumento.
- Então eu vou descer e acabar logo com isso. Vocês ficam daqui. Jorth prepare os arqueiros, por favor – finalizei.

2 comentários:

Míope sem óculos disse...

Conto a esmo...

kkkkkkkkkk

CONTINUE!!!

Josmar disse...

Me identifiquei bastante com Jorth. Exceto na parte que ele aceita não brigar por rabo preso. Pelo menos até que meu rabo fique preso, para eu descobrir que eu faria o mesmo né! huahauh


Abraços (lendo o segundo)