sábado, abril 03, 2010

Filho do Vento

12/08/08

E, ainda que sem vontade, ele não resiste ao impulso de, mais uma vez, dizer às paredes surdas que não é assim que funciona.

Que não é a sombra periférica que todos aqueles pobres diabos procuram, quando correm sob o sol, trabalhando e mantendo suas vidas (quando mantém as vidas luxuosas de outros).

Não é a sombra que passa pela alma dele quando ele percebe que muitas vezes foi infeliz, não por falta de chance ou recurso. Estava ocupado demais, correndo no sol e pelo motivo errado.

Não é a sombra que persegue e gira no seu eixo, enquanto ele corre no sol, o que ele procura.

Não tem nada a ver com trabalho, dinheiro, sucesso ou amor. Ele é a única sombra. Pincelada na paisagem, passando como trovão.

Sombra de si mesmo, refletida no suor gotejante. Que arde o olho. Só vê um borrão passando a metros por segundo.

Sua abstração, agora, é maior do que tudo isso, e ele só quer correr debilmente logo abaixo do rei, da bola de fogo. Por que ele quer, não por dever. Não hoje.

Nas pontas dos pés, ele mantém a velocidade máxima. O vento parece abrir caminho. O corpo curvado para frente percebe a poeira deixada para trás, desacreditado do que já fez, do que aguentou sem hesitar e sem parar de continuar.

Não há ruido em seus passos. O som em si, é uma lembrança. Mais uma sombra.

Agora ele tem paz. Ele vibra na frequência certa.

Só por hoje, ele não é um escravo de sua necessidade. E não há mais sombra, nem parada, nem obrigação.

Após ecoar sua satisfação nas paredes adjacentes..seguiu com o vento para o leste. Foi empurrado por ele. Adotado.

2 comentários:

John disse...

Run Francis Run!

darsh. disse...

pude ver você correndo