domingo, janeiro 24, 2010

É, talvez seu ombro só esteja sujo DEMAIS.

O rapaz ouvia a música. Batia levemente os pés acompanhando seu ritmo, e fechou os olhos pra se concentrar na letra.

Era uma bela canção, que falava sobre liberdade. Sobre fazer o que tem que fazer, derrubar os obstáculos. Romper as amarras. Um grande clichê, se você me perguntar; mas um que faz bastante sentido. A progressão da música o fez querer se mover, e ele apoiou o peso do corpo na outra perna, inquieto.

De longe avistou uma janela, que trepidava com o vento e a chuva lá fora. Um ar frio entrou pela imensa janela e encheu o cômodo, plantando nele um doce desejo correr e atravessá-la com um pulo, pousando no ambiente fresco do lado de fora.

Foi ao decidir romper a inércia que percebeu que era mais difícil do que pensava. Ele parecia estar preso. Não conseguia sair do lugar.

Olhou para os punhos: nada. Para os tornozelos: nada.

Procurou por cordas, correntes e até mesmo algo não-natural em volta de si. Não achou nada.

Bufou ao se sentir obrigado a olhar em volta, estava enjoado disso.

Seu olhar passou como vento pela sala e ele entendeu de imediato o que estava acontecendo: Ele estava totalmente livre, nada nele mesmo o impedia de simplesmente voar dali. Mas infelizmente, a sala estava cheia de gente à sua volta. Conhecidos e desconhecidos se misturavam ali. Todos vivendo suas vidas da forma que preferem, e todos amarrados. Como ele poderia sair do lugar se à sua volta havia tanta gente que simplesmente não se moveria? Como correria livre dessa forma?

Pensou em uma forma de avisá-los, mas não adiantaria. Alguns estavam amarrados por cordas, outros por correntes. Uns poucos tinham imensas bolas que aço que provavelmente eram o próprio peso de sua consciência. E nenhum deles notava a própria imobilidade.

Pensou bem, e o que todos aqueles tinham em comum eram a resposta para a metáfora.

A palavra veio fácil: medo.

Ele observava as pessoas e via cada medo. Eles estavam ali, escondidos totalmente a vista, e segurando cada um daqueles indivíduos agarrado no mesmo lugar.

Ah, claro. Agora você diz “é obvio, todos temos medo!”, e nós concordaríamos com você.

Mas o seu medo o impede de fazer o que te deixa feliz? Um risco faz você desistir totalmente de algo? Você baseia suas escolhas em um medo que você mesmo colocou (ou permitiu que os outros colocassem, o que é basicamente a mesma coisa) na sua cabeça?

Se você respondeu sim a alguma dessas perguntas, meus parabéns. Você corre o sério risco de estar nesta sala neste exato momento. E sabe o que mais? Não há ar-condicionado nela. Se você tiver coragem, vá lá fora e busque seu ar fresco, por que ninguém jamais fará isso por você. Seu medo é seu, e somente seu. O pó negro que todos nós temos que ter um pouco sobre os ombros, mas não o suficiente para fazer você curvá-los, como um derrotado por suas próprias escolhas.

O rapaz pareceu me ouvir, e já começou a se mover. Com um semblante tranqüilo, ele começa a achar a saída. Passando entre os medos dos outros e educadamente pedindo licença, ele ignora a imobilidade alheia e segue seu caminho.

Enquanto estamos sentados aqui, falando, o garoto atravessa a janela.

4 comentários:

John disse...

Muito bom cara, quase postei uma 'resposta' no meu imediatamente, mas acho melhor ficar soh com o seu texto mesmo

darsh. disse...

refletindo

Marcella Andrade disse...

Tenho que te dar os devidos cumprimentos. Muita gente chega ao auge da vida sem enfrentar esse medo idiota que nos faz perder tanto no trajeto, e nem mesmo tomar consciencia dele. Mas falar é mais fácil que fazer. Por isso, nao julgue a si mesmo nem os outros como covardes antes de observar mais fundo. Sim.. sigamos nossos instintos sem arrependimentos pelas consequencias. Soltar as amarras é algo muito revelador. O gosto da liberdade é so fking good, que a gente não quer saber de outra coisa. Liberdade! E mais: como diria Flapjack.. Aventuraaa!

Míope sem óculos disse...

ao garoto:

- Vá, e seja feliz! Se puder...